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Ontem escrevi seu nome. Apaguei. Reescrevi, sem letra maiúscula. Porque isso ele nunca mereceu. Da mesma forma que seus braços nunca mereceram os meus, nem sua boca a minha. Suas palavras, seus atos, menino bonito, nunca mereceram um único segundo da minha atenção. Aquela que lhe dediquei porque acreditei um dia na possibilidade de você se tornar gente. Mas o mundo não é um conto onde feiticeiras dão vida e dignidade a vazios e miseráveis bonecos de madeira. Você nunca quis ser gente, embora me houvesse falado dos meus encantos e do meu poder de transformá-lo ao lhe tocar. Deste meu poder, nunca duvidei. Mas duvidei das suas palavras quando, do alto daquela torre, vendo as luzes da cidade e sentindo o vento forte e fresco, você se abriu, me contou sua vida e quis que eu fosse parte dela. Não, não acreditei. Era o vinho, não você. Era o feitiço da noite, dos meus carinhos, da minha atenção, dos meus beijos. Eu quis lhe tocar e transformar ali. Mas você soprava na noite palavras que perdiam o sentido assim que abandonavam sua boca tão bem esculpida. Voláteis, como tudo o que vem de você. Voláteis como esse seu jeito de ver e viver o mundo, como tudo o que diz sentir, como cada um de seus pensamentos e cada uma de suas vontades. Tão voláteis quanto sua razão e sua moral.

Há algo em você que não possua a lastimável propriedade de me afastar cada vez mais?

Eu tentei. Tentei. Mas o feitiço não faz efeito se você não acreditar nele, e antes de tudo em você mesmo. Não me resta agora mais nada a fazer além de recolher minhas poções, minhas esperanças, meu carinho que não conseguiu virar amor. Apóio num canto escuro o caldeirão vazio, e me afasto. Talvez um dia você não seja mais tão oco. Talvez um dia suas palavras façam sentido. Talvez um dia sua moral não seja mais feita de éter. E pode ser então que sua voz já não me alcance. Pode ser que eu esteja longe, mergulhando em olhos muito mais verdes, acordando em braços muito mais quentes, onde correm sangue, respeito, caráter. Onde eu não precise mais ver suas costas, nem ouvir suas mentiras.

Acordei com uma sensação estranha. Com uma lembrança estranha. Acordei com certa saudade de um lugar que freqüentei por seis meses, todos os sábados, religiosamente: Rua Ceará, Rio de Janeiro. Ah, a Rua Ceará… carinhosamente chamada de Garage por seus freqüentadores assíduos. Onde o céu era sempre rosa. Não me recordo de ter visto o céu limpo e estrelado sobre aquele lugar amaldiçoado nenhuma vez. Era sempre rosa. E o cheiro de vômito, mijo e sexo que tomava conta do ar. As baratas nas calçadas. Os jovens embriagados acariciando as prostitutas da Vila Mimosa que circulavam entre nós. Esse era o Garage. Essa foi minha “casa” todos os sábados por seis meses. Na Rua Ceará eu aprendi que cinco garrafas de vinho não matam. E que é possível estar completamente embriagado, inconsciente, e continuar caminhando e conversando com as pessoas. Numa dessas perdas momentâneas de memória geradas pelo álcool, eu conheci um garoto que mal alcançava meu queixo. Quando meu cérebro despertou, já havia amanhecido e eu estava encostada num poste. O moleque estava com as mãos entre as minhas pernas e dizendo: “Cê vai dá prá mim ou não?”

Amanhecer naquele lugar era de uma depressão inexplicável. Ver toda aquela imundice escancarada. Aquela gente desfeita. Dava até certo remorso por estar ali. Quantas vezes prometi a mim mesma nunca mais voltar àquele lugar? No outro sábado estava lá. E isso acontecia com quase todos. As pessoas praguejavam, mas estavam sempre lá. A Rua Ceará nos tornou dependentes de todas as suas desgraças. Das putas sorrindo com seus dentes podres, das bebedeiras, dos tiroteios, das drogas, daquele céu, daquele mau cheiro. Foi lá que ensinei Dianna a vomitar. E fui apresentada à cocaína. Mas felizmente eu era fiel às garrafas de vinho quente e vagabundo, e não tivemos um segundo encontro. Aquele lugar mudou toda a minha vida. Ele me deu carinho algumas vezes e outras apanhei dele feito cão de rua. Eu era a típica “mulher de malandro”. Casada com a Rua Ceará. Um dia eu fui embora e nunca mais voltei. Fui pra Minas Gerais. Terra pacata, de gente bonita e reservada. Eu nunca disse adeus. Há sete anos espero reencontrá-la para uma despedida apropriada. Mas tenho medo de revê-la e não conseguir deixá-la novamente.

junho 2017
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