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Ela ri e gira, brincando com as folhas que o vento acaba de levantar sob seus pés. Ri, gira e tenta acompanhar com o próprio corpo o movimento circular: eletricidade no ar, nas coisas, na paisagem, em cada partícula de matéria, em cada gesto. Canto.

Eletricidade que se condensa dentro dela como uma tempestade que se forma, que toma forma, que explode, que se espalha, toma posse de tudo o que encontra. Força que não cabe nela: trespassa. Expande. Tão vasto.

Ela, criança que brinca de Iansã. Senhora dos ventos, das tempestades. Tudo o que ela quer é tirar os pés do chão. E seguir o vento.

Dentro da casa vazia, as luzes apagadas. Portas, janelas abertas. Incenso de flor de lótus queimando na mesinha de centro da sala. A voz de Zizi enche o espaço: o elegante cd de capa vermelha e dourada, sobre a paz, sobre a alvorada, sobre força, sobre amor, sobre polaridades, sobre Chico e Tom, sobre a vida. Sobre o branco e o negro, o divino e o profano. Sobre Todas as Coisas.

Som de violoncelo e percussão. Intensidade. Ela a sente agora, em seus sete centros de energia. Cheiro de terra molhada. Sentidos em alerta.

O vento aumenta. E aumenta mais. E ela quer se dissolver, fazer amor com ele. Se perder. Talvez para sempre, já não importa. Nada.

Sente os pés descalços na grama molhada. Sente o mundo girando, sente tudo. Ao mesmo tempo. Eleva as mãos:

Céu. Mente. Coração. Terra.

A música acaba. O incenso também. Ela seca os pés, deixa o jardim. Entra na casa escura, desliga o aparelho de som. A campainha soa na entrada, em seguida. Ele chegou de viagem. Ela abre a porta, abraça-o forte. E percebe que o vento cessou. Completamente.

Ele traz de volta, com a bagagem, o mundo real. Cansaço. Dores que procurou esquecer. Ela também está de volta: sorriso, café, conversa, agenda. De volta ao outro mundo. Aquele que não sentia seu, mas que erguera incansavelmente sobre pálidas, débeis fundações. As paredes eram de cristal. Sua fortaleza. A risível impressão de que o comum a protegia. De que o superficial a alimentava. De que a vida rasa, num dia qualquer, acabaria por bastar.

Fechou a porta da fortaleza, com cuidado para não deixar bater. Voltou as costas à vida, entorpeceu. Antes olhou a rua mais uma vez. Tão calmo agora. Tão estéril. Acionou o alarme contra roubo, fechou o roupão tecido de seda e medo, ligou a televisão e o piloto automático. A criança em seu ventre voltou a adormecer. Sentiu-se então confortável, segura.

Segura de tudo aquilo que mais desejava.

Até que a próxima tempestade despertasse. Dentro e fora dela.

“Proteja-me do que eu quero.”Jenny Holzer

agosto 2017
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