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O vento batia nas costas dela, era aquele frio na espinha, nas costelas, nas orelhas, as veias tremiam. O cabelo que já esperava ser embaraçado se antecipava. Aquele cabelo fino que de perto se viam tantas cores, de longe formavam uma única e brilhante imagem, um cabelo feminino. Seu rosto era claro, sardas e um nariz peculiar, geométrico. Tinha a boca larga cheia de dentes que queriam contar toda a verdade. Sentiu uma vontade de sorrir junto com a ansiedade que lhe fazia mexer o joelho direito freneticamente, tão rápido, tão! “Droga!”, era o controle de tudo indo pelo túnel como o metrô que ia para o sul da cidade. O joelho e a velha música no ouvido. Um alívio no peito, há uns dias passou a achar que tinha ficado para trás na lista de pessoas dele. Mas já começava a entender como funcionava aquela cabeça, aquele coração tão confuso e interessante para ela. Ele era como um livro escrito numa língua desconhecida, o livro mais bonito da estante, que esperava por uma tradução em português, podia ser só um rascunho mesmo, inacabado, como ele é, na verdade. Os rascunhos são toda a verdade, a crua e borrada verdade, sem amarras e sem correções. O metrô chegou, ela entrou, não sentou, a vibração do joelho tremia que nem uma enorme corda de baixo por todos os lados. Não tinha como se aquietar sabendo que em dez minutos iria encontrá-lo, virar do avesso de tanto que o coração pularia. E ter que disfarçar, respirar fundo pra que ele não sentisse as marteladas, ela detestava essas malditas marteladas delatoras e sonoras. Na estação combinada desceu, subiu as escadas espaçosas e que pareciam nunca acabar. A melhor subida de escadas de toda a sua vida. Queria subir correndo pra perder a respiração e ter uma desculpa para ofegar tanto. Chegou na catraca, e ninguém estava lá. Telefone toca.
– Também estou na catraca! Olha pra cá, menina da jaqueta verde!
Aquele abraço que ela sentiu tanta falta por três semanas. Na volta do abraço, não soube o que fazer, mas antes até de sorrir, o beijo.
-Senti saudade.
-Ah, deixa de ser boba vai!
Ele não segurou sua mão e foram para a casa dela. A casa da festa do primeiro encontro, do beijo na janela, do reconhecimento total, aquele que ela não havia planejado. Aquela noite não saía da sua cabeça, sabia que precisava de autocontrole, a vontade de perder o juízo era insuportável. Andava em círculos, cantava no chuveiro, estava andando rápido demais pelas ruas nos últimos dias.
Filme. Risadas. Cerveja, vodca, piadas. Beijos, maquiagem borrada, música, chão, sofá. Pele avermelhada, risadas, dentes. O rosto dele a perturbava, e naquela noite, brilhava. Todas as expressões faciais, todos os tons de voz, todas as palavras que não queria dizer queriam explodir entre as amídalas. Quis evitar a ilusão daquele olhar que olhava por muitos segundos nos olhos.
-Você é estranho.
-Por quê?
-Não sei dizer… Não sei quem eu sou aí.
-Aqui? Aqui você é você e só.
-Deixa pra lá.
-Deixo!, e riu dela.
Quis continuar, mas perdeu a voz.
Era sempre assim desde a primeira conversa. Dúvida, toda aquela confusão de pensamento, tudo isso que significa uma coisa só estava queimando-a por dentro. Queria levantar e falar em voz alta, muito alta, que não entendia nada, que queria ser dele e de mais ninguém ou de qualquer coisa. Queria pedir um sinal, um sinal que não fosse os de sempre, esses tão contraditórios. Mas não levantou, virou a cabeça para o outro lado, mantendo o corpo cansado de bruços. Respirou fundo. Não tinha mais ar. Sentiu o abraço, sentiu o cheiro dele, apertou os olhos e se deixou dormir, o rosto tenso. “Que tortura”.
O sol nasceu dentro do quarto. Percebeu que o braço dele ainda dormia sobre ela. Lembrou da teoria que leu numa revista sobre os modos que as pessoas dormem em dupla, que cada tipo tem um significado. Sempre tentando achar um significado pra tudo, mania antiga. Queria mesmo é alimentar aquela ilusão do tamanho de vinte casas como aquela em que estavam.
Ajeitaram-se. Seguiram até o metrô de ontem, as mãos dadas, as palavras economizadas, os planos de cada um para aquele dia. Quatro metrôs passaram, e foram embora sem eles. O abraço que segurava. O beijo que ela demoraria mais quantos dias pra beijar novamente? “E agora?”
Nó na garganta dela.
Ela embarcou pra Oeste, ele para Leste.
Ele, sentado no banco da janela. O barulho do metrô soava como música, perto do tamanho do medo que sentia. O que aquela garota tão cheia de surpresas e graça, quase com os mesmos anos de idade que ele, que mais pareciam muitos, queria com um garoto como ele, ele se perguntava. Lembrava das horas em que não sabia sobre o quê ela falava, e sentiu o rosto esquentar. A mão nos olhos. Se xingou em pensamento, e decidiu começar a ler todos os livros, ver todos os filmes que ela adora. Sentia medo, sentia felicidade. Depois de tanto sofrer com a última desilusão, que mal tinha passado, via aquela luz no fim do túnel, de tantas cores, e ela brilhava demais. Ontem quase viu o coração dela enquanto a beijava. Os braços femininos, as mãos aflitas e famintas gritavam todas as palavras de amor. O muro construído em volta dele pedia pra ser derrubado de uma só vez, ou aos poucos, podia ser. Mas como acreditar? Medo.
Nó na garganta dele.

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