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Aquilo que não foi esquecido; aquilo que é.

Há algumas horas atrás, me vi pensando certas coisas inquietantes. Dessas que nos põem rugas na testa e nos fazem perguntar por que as coisas têm que ser como são se, desse jeito, não nos fazem bem. Parando, percebi que as coisas, por serem de fato coisas, só se definem, permanecem ou mudam de direção se nós quisermos, se fizermos por onde. Ou seja, é uma merda? Culpa nossa. Foi aí que todo o peso do mundo me esmagou. E como doeu. Não que eu sinta que a situação de tudo que compõe a minha vida automaticamente faz de mim uma vítima-algoz, mas, infelizmente, certos componentes, ao meu ver mais importantes, são um belo fracasso. E eu, então, uma fracassada. Talvez tal dedução tenha vindo um tanto quanto atrasada, talvez já devesse ter me dado conta disso há alguns anos atrás. Afinal, precisei de quase 22. Não, isso não é pouco. Não, eu não me acho velha. Mas me sinto cansada, abatida pelas tristezas e, de repente, descubro que poderia ter evitado tanta coisa. Pior ainda é ver que não adianta nenhum pedido de desculpa ou retratação de tipo algum, as coisas (malditas coisas) não voltarão mais a ser como eram. Perdi tanto: de amores a trabalhos; de esforços a lágrimas. Nada é recuperável. São dos tipos de danos irreparáveis sobre os quais até se tinha certo controle e chance de uma nova carga na bateria, mas que, não aproveitados, extinguiram-se. Impotência é algo extremamente incômodo e insuportável quando não a temos desde sempre, quando ela simplesmente aparece quando bem entende. Nunca me senti tão igual aos homens, outrora viris, hoje dependentes da pílula azul. Digo: agradeçam por ainda terem um paliativo ao qual recorrer algumas noites que sejam. Eu passo as minhas, todas elas, sem nenhum.

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Está escuro. Apenas a luz fraca e oscilante de uma televisão muda ilumina o quarto. Ela gosta do silêncio, sempre foi um companheiro fiel. Ainda tem no rosto a marca das lágrimas e a expressão apática da dor. Daquele tipo que dura mais tempo do que se agüenta e é mais intensa do que se espera. Ela fecha os olhos, está sentada e tem o livro querido nas mãos. – Nunca ninguém falou sobre o amor como Kundera, – ela pensa – nem nunca falará – completa e sorri timidamente. Passa os dedos pelo desenho da capa e lembra a última vez que o leu em voz alta. Estava ao lado dele na cama. Sentia que poderia morrer depois daquelas noites. Era tanta felicidade, tanto carinho, tantos abraços e beijos que mal podia conter a alegria, a sensação boa que é sentir-se amada…

Então lembra do avião, da volta e do choro. Da agonia, do fim de tudo, da impotência diante dos fatos e do sentimento que iria ser assassinado. Desespera-se mais uma vez. Uma entre tantas outras vezes nesses sete últimos dias. Não nessa última semana, mas nesses sete últimos dias. O peso é muito maior. As noites não dormidas são extremamente dolorosas e difíceis de carregar. Ela enxuga o rosto com as mãos e levanta. Deixa o livro em cima do criado-mudo e caminha até o guarda-roupa. Abre a porta, ajoelha-se e procura a camisola na gaveta. Roupa que ainda trazia o cheiro dos dois e que usava para dormir quando sentia-se muito só ou muito triste. Não queria lavar, não iria fazer isso tão cedo. O cheiro a reconfortava. Era a única coisa que ainda podia ter, além das lembranças: a mistura do cheiro dos corpos, do sexo, do sono, da preguiça na cama. Aquilo era como uma droga que acalmava o mundo dentro dela. Tudo, então, fica tranqüilo e ela consegue pensar novamente. Pensa que pelo menos pôde viver aquela história, que pelo menos pôde tê-lo por aquele tempo e que pessoa, distância, mágoa ou dor alguma conseguiria apagar. Nada diminuiria o sentimento, nem a história. Nada.

Ela sorri, dessa vez um sorriso bonito, veste a camisola e dorme.

outubro 2017
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