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Chora, infeliz incauta. Chora porque beijaste uma boca estéril, porque são tão diferentes dos dele os teus ideais, as tuas histórias, os teus gostos, tudo. Chora agora porque nunca o tinhas visto até aquele beijo, e o coração que esteve hoje tão perto nada se parece com o teu, e por ele o teu não pulsa nem por um infeliz segundo.

Arranca logo de ti esse coração infértil, tão pleno de um vazio que te atravessa e corta e te dói inteira, tão amargo, tão independente da tua vontade, tão carrasco e filho da puta. Pra que o queres agora? Pra que o queres assim? De que te serve esse coração incapaz de amar plenamente, de se conectar, tão cego e burro quanto porta alguma jamais foi? Arranca-o de ti e o atira de uma vez aos porcos. Deixe que se alimentem dele como se a mais ínfima e podre das migalhas fosse mesmo um dia lhes pertencer. E chora.

Chora convulsivamente. Sufoca o teu pranto nesse travesseiro e dorme outra vez com os olhos inchados, a maquiagem borrada. Chora porque nunca vais ter nada além de restos. Nada além de uma boca qualquer, de um corpo qualquer, numa madrugada qualquer.

Talvez assim, dilacerado, atirado a um solo imundo, misturado à merda da pocilga e repartido entre os porcos, talvez assim teu coração te pareça útil.

Talvez assim percebas que ele ainda pulsa, desconsolado, débil, despedaçado. Desgraçadamente fraco.

Talvez.

Era algo brilhante, ainda mais exposto a luz do sol daquele dia quente.
Era intenso, principalmente naquela madrugada lancinante. Vibrava.
Não precisou de porta para entrar, talvez por isso mesmo tenha saído assim tão rápido.
Não tinha voz e me dizia coisas estranhas e sem rimas.
Coisas sem sentido, com as quais eu sempre concordava e ria,
Não sinto saudade e não me arrependo de a ter mandado embora,
Só não concordo em ter perdido esse pedaço grande de mim.
Como se a faixa preferida do cd estivesse riscada e não pudesse mais ser ouvida.
Talvez a veja de novo, em um desses dias em que o que machuca é o que aproxima.

Quando a dor for menor que o medo e não traga tanta hesitação.
Repousarei meus olhos, como quem olha de soslaio, como se visse o mar.
Sem lágrima, sem drama, sem cama, sem tudo.
Como quem navega sem velas sem pressa alguma de chegar.
Apenas vai.
Eu vou.

agosto 2017
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