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Olho o papel branco sobre o envelope, giro a caneta entre os dedos, mordo-lhe a tampa. Ah, os começos.

Sei exatamente o que quero te dizer. Mas o branco da folha insiste em me abduzir, hipnotizar, arrancar do baralho de sentimentos sem nome que dançam, debochados, aqui dentro. Começo, paro, olho as primeiras linhas, e as odeio. Odeio começos. E sei o porquê: todo começo traz, implícito, um fim. Finais são uns filhos da puta. Pode ser a mais bela das histórias, o mais belo dos finais. Mas é final. Se houver uma resposta tua, também ela vai ter um final. Odeio tudo o que é volátil, impermanente, tudo o que está desgraçadamente acorrentado às leis da física. Aliás, odeio física. O grande sonho do meu avô era inventar uma máquina que, uma vez posta a funcionar, não viesse mais a parar, nunca. Meu grande sonho é abolir todos os finais. Histórias, sensações, horas deveriam poder ser vividas e revividas outra vez, outra vez, outra vez…

É que ninguém me toma assim, de assalto, aperta contra a parede, devora com seus beijos, com seu sexo, puxa meus cabelos, bagunça meus sentidos, marca minha pele, rouba meu fôlego e meu juízo e sai então, satisfeito, andando sem olhar pra trás. E o pior: sem coragem de dizer adeus.

Sabes, já tinha visto tuas costas antes. Antes mesmo de te conhecer. Vi nas tuas palavras, ouvi na tua voz, li nos teus olhos, no teu jeito de sorrir, de falar, de calar e de me ouvir. Senti no teu corpo, na tua pressa de me possuir. No teu jeito desesperado de tentar se livrar do gosto de outra mulher procurando sentir o meu. Mas já não sentias nada. Já estavas irremediavelmente envenenado, possuído por inteiro, por dentro e por fora, e eu vi.

Ah, sim, eu soube do fim antes de tudo começar. Soube naquela madrugada, naquele aeroporto frio, enquanto procurava dominar minha impaciência, meu sono atrasado, minha febre de trinta e nove graus. E ali mesmo já procurava arrancar de mim o inexplicável carinho que sentia por tudo que vinha de ti, o desejo de te abraçar forte e a ilusão de que eu talvez conseguisse te prender naquele longo e silencioso abraço. Enfim, arranquei tudo de dentro de mim naquela rodoviária, te expulsei daqui de dentro junto com as lágrimas que, fraca, deixei cair naquele chão imundo, como um filho indesejado que é violentamente extirpado de um ventre e atirado numa lixeira qualquer.

Foi por isso que nunca te amei. Nunca te amei porque te matei assim que nossos corpos se separaram. Como uma Viúva-negra que mata e devora o macho assim que termina a cópula. Arranquei-te de mim antes que crescesses. Antes que me tomasses a alma. E o coração.

Arranquei? Se queres saber, ainda vejo teus olhos, ainda sinto teus dedos na minha sobrancelha, ainda lembro da tua voz, sussurrada, quando disseste meu nome pela primeira vez. Ainda sinto teu cheiro, teu gosto, tudo. Sabes, bastava que tivesses aberto uma passagem, a menor delas. Eu faria dela uma porta, e entraria por ela. Mas não fiz. Não entrei. Eu nunca, nunca te amei.

Tiro a caneta do papel, examino a caligrafia impaciente, cansada, e vejo nela mais dor do que deveria haver. A dor do que nunca aconteceu. A pior das dores.

Não, não vou terminar, não vou assinar aqui meu nome, como se o gravasse na minha própria lápide. Deixo assim, então, interminado. É assim que eu sou. Uma frase sem ponto. Uma história sem fim.

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