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Olho a estrada à minha frente, e a cada passo ela me pesa mais.

É que levo comigo tanta coisa que julgo um dia precisar, tanto peso, tanto peso, que não consigo mais andar.

Fecho os olhos. Expiro. Esvazio-me. De tudo.

Se é necessário que eu arranque do corpo, da alma, toda dor e toda ausência para que eu possa enfim caminhar, arranco-as todas agora. Se é necessário que eu queime junto com elas e desça novamente ao meu inferno, queimo, ponho-me enferma, desço o quanto precisar. Para escalar em seguida, com os dedos em carne viva, as paredes mortalmente ásperas que me levam outra vez à superfície e ao ar que desesperadamente busco. Para arremessar as cinzas aos teus pés, Mãe, nesta terra que acolhe e transforma, que traz e leva embora, edifica, destrói e recria com os restos as mais ricas essências. Se precisa ser assim, que assim seja. Que assim se faça.

Atiro aqui, agora, as cinzas do que fui. Cravo nelas um punhal para que se misturem com a terra e nela se entranhem cada vez mais fundo, e nunca, nunca mais retornem. Exorcizo toda dor, todo vazio, todo o meu passado. Violento minha alma e meu peito em nome de toda possibilidade. Declaro-me livre e plenamente capaz de prosseguir, frágeis pés caminhando sobre um solo áspero em busca de vida, em busca do mundo. E que jamais digam que não fui forte. Que jamais digam que não fiz escolhas e que não optei por seguir, mesmo miseravelmente partida.

Às dores que sei não poder evitar, curvo-me: são minhas sábias mestras.

A todo o resto, abro os braços. Recebo.

Inspiro.

Abro devagar os olhos e vejo que a estrada agora é outra: acabo de nascer outra vez.

Está escuro. Apenas a luz fraca e oscilante de uma televisão muda ilumina o quarto. Ela gosta do silêncio, sempre foi um companheiro fiel. Ainda tem no rosto a marca das lágrimas e a expressão apática da dor. Daquele tipo que dura mais tempo do que se agüenta e é mais intensa do que se espera. Ela fecha os olhos, está sentada e tem o livro querido nas mãos. – Nunca ninguém falou sobre o amor como Kundera, – ela pensa – nem nunca falará – completa e sorri timidamente. Passa os dedos pelo desenho da capa e lembra a última vez que o leu em voz alta. Estava ao lado dele na cama. Sentia que poderia morrer depois daquelas noites. Era tanta felicidade, tanto carinho, tantos abraços e beijos que mal podia conter a alegria, a sensação boa que é sentir-se amada…

Então lembra do avião, da volta e do choro. Da agonia, do fim de tudo, da impotência diante dos fatos e do sentimento que iria ser assassinado. Desespera-se mais uma vez. Uma entre tantas outras vezes nesses sete últimos dias. Não nessa última semana, mas nesses sete últimos dias. O peso é muito maior. As noites não dormidas são extremamente dolorosas e difíceis de carregar. Ela enxuga o rosto com as mãos e levanta. Deixa o livro em cima do criado-mudo e caminha até o guarda-roupa. Abre a porta, ajoelha-se e procura a camisola na gaveta. Roupa que ainda trazia o cheiro dos dois e que usava para dormir quando sentia-se muito só ou muito triste. Não queria lavar, não iria fazer isso tão cedo. O cheiro a reconfortava. Era a única coisa que ainda podia ter, além das lembranças: a mistura do cheiro dos corpos, do sexo, do sono, da preguiça na cama. Aquilo era como uma droga que acalmava o mundo dentro dela. Tudo, então, fica tranqüilo e ela consegue pensar novamente. Pensa que pelo menos pôde viver aquela história, que pelo menos pôde tê-lo por aquele tempo e que pessoa, distância, mágoa ou dor alguma conseguiria apagar. Nada diminuiria o sentimento, nem a história. Nada.

Ela sorri, dessa vez um sorriso bonito, veste a camisola e dorme.

É minha, que sou idiota; É sua, que é covarde.

Vamos acabar com tudo isso. Vamos nos pisar, nos maltratar, chorar até a última lágrima não querer mais sair, até os olhos secarem, como os meus estão agora: secos, vermelhos, inchados, exaustos. Vamos mandar o nosso amor para a puta que o pariu. Mas e quem é a puta? Sou eu? É você? Ok, meu bem, nos mandemos à merda, então. Assassinemos esse sentimento que de nada serve e para nada nunca serviu. Aliás, para a dor e para mágoa, ele é de uma utilidade sem igual. Grande e bela perda de tempo, não? Grandes e belos gastos desnecessários. Se eu soubesse que tudo iria acabar assim, não teria me dado ao trabalho, juro, não teria nem lhe dirigido a palavra. Queria nunca ter visto em você uma possibilidade de ser e de fazer alguém feliz, queria nunca ter sentido por você todo o amor que pude sentir, queria nunca ter lhe conhecido, de coração. Quero sumir.

Vamos assassinar esse sentimento imbecil. Vamos comê-lo cru e sorrir para mostrar o quanto somos cruéis e fortes e racionais e pateticamente inteligentes. Vamos arrancar do peito qualquer coisa que ainda bata, por desespero ou não. Foda-se tudo isso. Vamos tirar da cabeça qualquer lembrança. Vamos fingir que nada aconteceu. É tão mais puro, não é? Tão mais fácil, tão mais certo. É isso que dizem, todos devem estar muito a par dos acontecimentos. Todos devem ter vivido essa história muito mais do que nós dois. Todos uns filhos da puta desocupados.

Que seja muito sábia essa decisão, querido. Meu silêncio é a minha melhor resposta à sua burrice. Sim, por que eu, apesar de passional, estou longe de ser burra, ao contrário do que disseram suas palavras. Não associo uma coisa à outra. Se tal conexão faz você se sentir melhor, que assim seja.

Que assim seja e amém.

Olho o papel branco sobre o envelope, giro a caneta entre os dedos, mordo-lhe a tampa. Ah, os começos.

Sei exatamente o que quero te dizer. Mas o branco da folha insiste em me abduzir, hipnotizar, arrancar do baralho de sentimentos sem nome que dançam, debochados, aqui dentro. Começo, paro, olho as primeiras linhas, e as odeio. Odeio começos. E sei o porquê: todo começo traz, implícito, um fim. Finais são uns filhos da puta. Pode ser a mais bela das histórias, o mais belo dos finais. Mas é final. Se houver uma resposta tua, também ela vai ter um final. Odeio tudo o que é volátil, impermanente, tudo o que está desgraçadamente acorrentado às leis da física. Aliás, odeio física. O grande sonho do meu avô era inventar uma máquina que, uma vez posta a funcionar, não viesse mais a parar, nunca. Meu grande sonho é abolir todos os finais. Histórias, sensações, horas deveriam poder ser vividas e revividas outra vez, outra vez, outra vez…

É que ninguém me toma assim, de assalto, aperta contra a parede, devora com seus beijos, com seu sexo, puxa meus cabelos, bagunça meus sentidos, marca minha pele, rouba meu fôlego e meu juízo e sai então, satisfeito, andando sem olhar pra trás. E o pior: sem coragem de dizer adeus.

Sabes, já tinha visto tuas costas antes. Antes mesmo de te conhecer. Vi nas tuas palavras, ouvi na tua voz, li nos teus olhos, no teu jeito de sorrir, de falar, de calar e de me ouvir. Senti no teu corpo, na tua pressa de me possuir. No teu jeito desesperado de tentar se livrar do gosto de outra mulher procurando sentir o meu. Mas já não sentias nada. Já estavas irremediavelmente envenenado, possuído por inteiro, por dentro e por fora, e eu vi.

Ah, sim, eu soube do fim antes de tudo começar. Soube naquela madrugada, naquele aeroporto frio, enquanto procurava dominar minha impaciência, meu sono atrasado, minha febre de trinta e nove graus. E ali mesmo já procurava arrancar de mim o inexplicável carinho que sentia por tudo que vinha de ti, o desejo de te abraçar forte e a ilusão de que eu talvez conseguisse te prender naquele longo e silencioso abraço. Enfim, arranquei tudo de dentro de mim naquela rodoviária, te expulsei daqui de dentro junto com as lágrimas que, fraca, deixei cair naquele chão imundo, como um filho indesejado que é violentamente extirpado de um ventre e atirado numa lixeira qualquer.

Foi por isso que nunca te amei. Nunca te amei porque te matei assim que nossos corpos se separaram. Como uma Viúva-negra que mata e devora o macho assim que termina a cópula. Arranquei-te de mim antes que crescesses. Antes que me tomasses a alma. E o coração.

Arranquei? Se queres saber, ainda vejo teus olhos, ainda sinto teus dedos na minha sobrancelha, ainda lembro da tua voz, sussurrada, quando disseste meu nome pela primeira vez. Ainda sinto teu cheiro, teu gosto, tudo. Sabes, bastava que tivesses aberto uma passagem, a menor delas. Eu faria dela uma porta, e entraria por ela. Mas não fiz. Não entrei. Eu nunca, nunca te amei.

Tiro a caneta do papel, examino a caligrafia impaciente, cansada, e vejo nela mais dor do que deveria haver. A dor do que nunca aconteceu. A pior das dores.

Não, não vou terminar, não vou assinar aqui meu nome, como se o gravasse na minha própria lápide. Deixo assim, então, interminado. É assim que eu sou. Uma frase sem ponto. Uma história sem fim.

junho 2017
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