You are currently browsing the tag archive for the ‘cinzas’ tag.

Olho a estrada à minha frente, e a cada passo ela me pesa mais.

É que levo comigo tanta coisa que julgo um dia precisar, tanto peso, tanto peso, que não consigo mais andar.

Fecho os olhos. Expiro. Esvazio-me. De tudo.

Se é necessário que eu arranque do corpo, da alma, toda dor e toda ausência para que eu possa enfim caminhar, arranco-as todas agora. Se é necessário que eu queime junto com elas e desça novamente ao meu inferno, queimo, ponho-me enferma, desço o quanto precisar. Para escalar em seguida, com os dedos em carne viva, as paredes mortalmente ásperas que me levam outra vez à superfície e ao ar que desesperadamente busco. Para arremessar as cinzas aos teus pés, Mãe, nesta terra que acolhe e transforma, que traz e leva embora, edifica, destrói e recria com os restos as mais ricas essências. Se precisa ser assim, que assim seja. Que assim se faça.

Atiro aqui, agora, as cinzas do que fui. Cravo nelas um punhal para que se misturem com a terra e nela se entranhem cada vez mais fundo, e nunca, nunca mais retornem. Exorcizo toda dor, todo vazio, todo o meu passado. Violento minha alma e meu peito em nome de toda possibilidade. Declaro-me livre e plenamente capaz de prosseguir, frágeis pés caminhando sobre um solo áspero em busca de vida, em busca do mundo. E que jamais digam que não fui forte. Que jamais digam que não fiz escolhas e que não optei por seguir, mesmo miseravelmente partida.

Às dores que sei não poder evitar, curvo-me: são minhas sábias mestras.

A todo o resto, abro os braços. Recebo.

Inspiro.

Abro devagar os olhos e vejo que a estrada agora é outra: acabo de nascer outra vez.

junho 2017
S T Q Q S S D
« dez    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

Arquivos

categorias

contando

  • 9,809 clicks