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Está escuro. Apenas a luz fraca e oscilante de uma televisão muda ilumina o quarto. Ela gosta do silêncio, sempre foi um companheiro fiel. Ainda tem no rosto a marca das lágrimas e a expressão apática da dor. Daquele tipo que dura mais tempo do que se agüenta e é mais intensa do que se espera. Ela fecha os olhos, está sentada e tem o livro querido nas mãos. – Nunca ninguém falou sobre o amor como Kundera, – ela pensa – nem nunca falará – completa e sorri timidamente. Passa os dedos pelo desenho da capa e lembra a última vez que o leu em voz alta. Estava ao lado dele na cama. Sentia que poderia morrer depois daquelas noites. Era tanta felicidade, tanto carinho, tantos abraços e beijos que mal podia conter a alegria, a sensação boa que é sentir-se amada…

Então lembra do avião, da volta e do choro. Da agonia, do fim de tudo, da impotência diante dos fatos e do sentimento que iria ser assassinado. Desespera-se mais uma vez. Uma entre tantas outras vezes nesses sete últimos dias. Não nessa última semana, mas nesses sete últimos dias. O peso é muito maior. As noites não dormidas são extremamente dolorosas e difíceis de carregar. Ela enxuga o rosto com as mãos e levanta. Deixa o livro em cima do criado-mudo e caminha até o guarda-roupa. Abre a porta, ajoelha-se e procura a camisola na gaveta. Roupa que ainda trazia o cheiro dos dois e que usava para dormir quando sentia-se muito só ou muito triste. Não queria lavar, não iria fazer isso tão cedo. O cheiro a reconfortava. Era a única coisa que ainda podia ter, além das lembranças: a mistura do cheiro dos corpos, do sexo, do sono, da preguiça na cama. Aquilo era como uma droga que acalmava o mundo dentro dela. Tudo, então, fica tranqüilo e ela consegue pensar novamente. Pensa que pelo menos pôde viver aquela história, que pelo menos pôde tê-lo por aquele tempo e que pessoa, distância, mágoa ou dor alguma conseguiria apagar. Nada diminuiria o sentimento, nem a história. Nada.

Ela sorri, dessa vez um sorriso bonito, veste a camisola e dorme.

agosto 2017
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