Destruir é mais fácil que construir. E eu destruo tão bem… E não consigo parar. Não consigo. Mesmo com as lágrimas, os gritos, o desespero. Mesmo com o rosto retorcido e vermelho, a mão erguida pronta pra me dar um tapa. Esmago suas palavras. Seus sonhos. Minhas promessas. Destruo nossa vida. E a destruição é proporcional ao quanto eu amo. E eu sinto tanto… dói tanto.. e não consigo parar. Não consigo…

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Eu vou e quase sempre sinto que só vou
É pouco, muito pouco e ainda assim eu vou.
O que é que me consome?
O que traz o brilho à tona e some?

Nada do lado de cá,
do sonho não restou lembrança.
Nado pro lado de cá,
De volta pro fundo e cada vez mais pra baixo.

Só.

Esgotada.

futuro do presente
futuro do pretérito
seria, viveria, sorriria se aqui você viesse

copo molhado
olhar enxugado
ressaca de dor de não ser

desejo contido
sono desperdiçado
você está, esteve, estará, será?

espera chegar
o mês acabar
a impaciência consumir todo o tempo
tempo que eu tinha que eu tive que tivemos.

Solve-me como a um último gole de vinho da garrafa mais cara, sente o prazer de me ter dissolvendo em tua língua, a cada movimento;

Ouve-me gemer um tom só meu, por toda carícia da tua boca, dos teus dedos, da tua presença que se faz ausência e volta a si, ao nosso ritmo;

Observa-me em toda a minha pressa, o acelerar do meu peito exposto em todas as partes do meu corpo, tudo palpita, e sempre mais, a cada segundo;

Toca-me a alma com teus lábios libertinos e goza. Em mim e comigo.

Ontem escrevi seu nome. Apaguei. Reescrevi, sem letra maiúscula. Porque isso ele nunca mereceu. Da mesma forma que seus braços nunca mereceram os meus, nem sua boca a minha. Suas palavras, seus atos, menino bonito, nunca mereceram um único segundo da minha atenção. Aquela que lhe dediquei porque acreditei um dia na possibilidade de você se tornar gente. Mas o mundo não é um conto onde feiticeiras dão vida e dignidade a vazios e miseráveis bonecos de madeira. Você nunca quis ser gente, embora me houvesse falado dos meus encantos e do meu poder de transformá-lo ao lhe tocar. Deste meu poder, nunca duvidei. Mas duvidei das suas palavras quando, do alto daquela torre, vendo as luzes da cidade e sentindo o vento forte e fresco, você se abriu, me contou sua vida e quis que eu fosse parte dela. Não, não acreditei. Era o vinho, não você. Era o feitiço da noite, dos meus carinhos, da minha atenção, dos meus beijos. Eu quis lhe tocar e transformar ali. Mas você soprava na noite palavras que perdiam o sentido assim que abandonavam sua boca tão bem esculpida. Voláteis, como tudo o que vem de você. Voláteis como esse seu jeito de ver e viver o mundo, como tudo o que diz sentir, como cada um de seus pensamentos e cada uma de suas vontades. Tão voláteis quanto sua razão e sua moral.

Há algo em você que não possua a lastimável propriedade de me afastar cada vez mais?

Eu tentei. Tentei. Mas o feitiço não faz efeito se você não acreditar nele, e antes de tudo em você mesmo. Não me resta agora mais nada a fazer além de recolher minhas poções, minhas esperanças, meu carinho que não conseguiu virar amor. Apóio num canto escuro o caldeirão vazio, e me afasto. Talvez um dia você não seja mais tão oco. Talvez um dia suas palavras façam sentido. Talvez um dia sua moral não seja mais feita de éter. E pode ser então que sua voz já não me alcance. Pode ser que eu esteja longe, mergulhando em olhos muito mais verdes, acordando em braços muito mais quentes, onde correm sangue, respeito, caráter. Onde eu não precise mais ver suas costas, nem ouvir suas mentiras.

Os olhos dizem aquilo que não temos coragem de falar. É por isso que naquele dia eu não olhei nos seus olhos quando você resolveu sentar-se ao meu lado. E então se inclinou e fez um elogio. O único de nossa breve vida juntos. Foi nisso que eu pensei quando entrei naquela capela. Foi disso que eu lembrei. Desse dia. Que eu levei as músicas que marcaram o começo e o fim de tudo. Odeio o cheiro de cravos. E aquele cheiro tomava conta do ambiente. E eu sentia meu estômago dar voltas e mais voltas. Vi sua irmã, sua versão iluminada e leve. Mal falava. Mal caminhava. Quando me viu… me abraçou.

– Ele morreu com o computador ligado…! Você estava falando com ele?

– Não.

Eu nem sabia desse detalhe. Aliás, eu nem queria saber de detalhe algum. Não queria saber de nada, nem ver nada. Queria era fingir que as coisas continuavam iguais. Não consegui me esquivar a tempo. Levei um puta soco no meio da cara. Dessa vez não dava pra desviar o olhar. Só que… dessa vez seus olhos estavam fechados. Pra sempre. E por mais que eu quisesse mergulhar neles, não poderia. E isso doeu tanto que senti o ar faltar. As pernas enfraqueceram, a voz falhou, a dor foi tão forte que transbordei. Chorei. Pretendia chorar até secar quando vi estampada bem na minha cara a realidade fria e pálida. Machucada. Desesperada. Uma explosão numa manhã de primavera. Devastadora. Matou sua alma, devorou seu sorriso, cortou sua pele, desgraçou minha vida, acabou com a sua. Eu estava ali, bem perto. Uma rua depois. Tão perto… O tempo não volta. O maldito me arrasta há três anos e não consegue nos separar. Com unhas, dentes e vísceras eu me agarrei às memórias. E elas me consomem. Os anos passam e elas me consomem. E irão me consumir até que eu deixe de existir.

 

Escondi todas as palavras bonitas sob meu jeito ácido de me comunicar contigo. Você respondia da mesma maneira. Eu fazia questão de parar na porta da sua casa e te acordar. Só pra ver o cabelo despenteado e os olhos pequenos tentando identificar quem o chamava. Cachorro no colo. Camisa azul. Meu caro Tycho, eu amava você. E era tão difícil esconder isso…

Naquele dia, naquela capela, mesmo tentando segurar, esse sentimento escorreu de mim pra dentro de você. Tocar suas mãos frias me dilacerou. Aquela caixa de madeira era tão pequena para a pessoa que você era. Homem bonito de frases sempre irônicas. De inteligência invejável. Homem que meu coração abrigou com tanto cuidado. E naquele lugar com cheiro de cravo todos souberam que com você morreu um pedaço de mim. Todos souberam o que você nunca soube e eu nem precisei dizer. Ficou tão óbvio. Tão estampado. E no momento errado. Não queria que os outros soubessem. Queria que VOCÊ soubesse. Queria gritar a plenos pulmões. Gritar até a garganta sangrar. E fiz isso.

 

Você nunca respondeu. Três anos depois e nada. Nenhum alívio. E eu enlouquecendo. Vendo seu rosto no rosto do outro. Aquele que me rejeita. Olho nos olhos dele e te procuro, mas não o encontro. Mesmo assim insisto. O rosto é o mesmo. Os trejeitos também. Ele não é você. Eu já me perdi há tempos. Todas as coisas estão girando sem parar. Inacabadas e sem sentido algum. Como eu. Como esse texto. Como você. Inacabado.

me conta sobre seu sonho estranho
coloca uma música doce pra tocar
diz que não sabe, de seu amor, qual o tamanho
que quer correr, e é culpa do medo de se apaixonar

me leva para aquela praça antiga
grita que quer passar a noite inteira assim, do lado
confidencia que sempre quis ser mais do que amiga
que espera que nunca nada dê errado

me convida pra fugir depois do primeiro raio de sol
pega na minha mão, diz que quer sentir tudo o tempo todo
pede pra trocar de música, que não é mais hora de ouvir rock n’ roll
explica que de alguma maneira, mesmo se distantes, estaremos juntos de algum modo

olha com olhos de caleidoscópio as flores de celofane verde e amarelo que fiz
abre uma cerveja, deita no tapete da sala e me faz te amar
sai e volta correndo, gargalhando por ter escapado da chuva por um triz
beija a minha boca, diz no meu ouvido que nunca mais quer chorar

e sorri.

Eu acordei hoje e olhei pelo retrovisor
Não vi lá atrás, vi meu rosto, branco
Claro como uma manhã de descanso
Cinza como o concreto que serve de chão

Eu acordei ontem e notei que passava pela mesma rua
Eu não sei o caminho de casa
Mude tudo e eu não chegarei tão cedo assim demais
Quero sair correndo e te ver de frente

Me tira dessa vida escrita por jornalistas
Apareça na minha rua e me chame pra ouvir rock
Estou cansada de puxarem meus pés pro chão
A palavra “calma” eu já mandei pro inferno

Hoje eu acordei e não vi o dia
Não vi o que ficou pra trás e me arrependi
Escuro como os olhos que vêem as pálpebras
Cinza como os dias que meus olhos fingem ser ensolarados.

Silenciosamente eu recolho meus cacos, meus trapos, meus restos. O que sobrou de mim depois de ser duas vezes rejeitada por você. Desisto. Minha auto-estima se matou. Esfrego a cara no chão e me afogo no seco. Dissolvendo lentamente… pelo ridículo, pela vontade de ter aquilo que não posso. Não te alcanço. E você não me vê. Você nunca me viu. Nem mesmo sentada naquela sarjeta, diante daquele esgoto fétido. Totalmente bêbada, dizendo que te quero. Que te desejo. Eu pari meu coração ali mesmo. Aquelas palavras saíram rasgando. Mas eu disse. Fiz você se sentir amado. Você me fez lixo e me integrou ao esgoto. Disse que não me queria e fitou o vazio. Senti que você queria correr pra longe, bem longe. O mais longe possível de mim e das minhas palavras. Apavorado. Fiquei lá olhando pra você sem mover um músculo da minha face, completamente fodida. E então você simplesmente me deixou. Chorei e me retorci naquele chão imundo. Fui obrigada a engolir de volta o desgraçado que havia acabado de parir bem na sua frente. Engoli. Seco. Sem mastigar. Engoli tudo e fui atrás de você. Ainda pedi que segurasse minha mão. Você segurou, apertou com força e me largou de novo. Em segundos se tornou meu deserto. E nele tenho me arrastado. E as feridas quase curadas voltaram a se encher de pus e sangue. Pois hoje, mais uma vez, você me atirou ao lixo como uma folha de papel usada, rabiscada, sem utilidade. Semanas depois do primeiro episódio resolveu se aproximar de mim. Em mim desenhou, escreveu, desabafou, calculou, fez o que quis. Sorriu pra mim. Brincou comigo. Fez confidências e me aconchegou em seus braços. E então eu me deixei levar e cuspi mais uma vez meu sentimento aos seus pés. Eu disse. Disse que te gostava. Demais. E como resposta você me rasgou ao meio e me largou no fundo da lixeira com as bitucas de cigarro, latinhas de cerveja, papéis de bala e as cartas declarando seu amor à outra. Aquela. Que tem cheiro de morte. Quando ela se aproxima chega a causar náuseas. Mas o sorriso dela é largo e desavergonhado. Ela é mulher. Exuberante, selvagem, livre. É da vida, dos vícios, de curvas bem delineadas. E eu, quem sou? Sou essa sombra. Magra, pálida, inexpressiva. É com ela que a sua voz é suave e seus olhos são serenos. É com ela que seu sorriso é molhado. São as coxas dela que você quer entre as suas. E eu, o que faço? Cato as migalhas que caírem dos momentos felizes que compartilharem? Cheiro os lençóis onde ela deleitou-se com cada detalhe do seu sexo? Não quero as sobras. Quero você por inteiro. Mas de mim você não quer nada. Nem um só fio do meu cabelo roçando a sua pele. E dói tanto ouvir isso mais de uma vez. Corta. Dilacera. E tudo que posso fazer é recolher meus estilhaços… Silenciosamente….

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