You are currently browsing Alessandro Sachetti’s articles.

Tudo o que eu vejo agora são apenas nuvens, nuvens que deixam meus olhos vermelhos e me impedem de olhar pra frente. A certeza de que não havia razão pra ser assim, mas foi. Noites e noites torturantes sentindo que não era a coisa certa. A decisão incerta de deixar partir, de deixar que tudo o que segurava isso caísse de mim como um galho seco de uma velha árvore ao pé de um montanha coberta de neve e, por isso, provocasse som algum.
Provavelmente aquela mudança repentina na paisagem não representaria dano algum para quem observa com olhos externos. O sorriso continua no lugar, as mesmas rugas, o cabelo tentando achar a postura correta, os olhos tristemente mais leves, mais vivos e menos observadores tomaram lugar no que antes era um desespero sussurrante.
Corre por dentro uma tamanha inquietação que faz com que o sangue pareça jorrar dentro das veias, que nos braços mais finos acabam surgindo e parecem quase sempre estarem prestes a entrar em erupção. Uma erupção silenciosa que assola, como se arrancasse a pele e, assim, sentisse o congelar dessas noites de ventos de inverno que parecem lamber nossos corpos através de nossas roupas.
As noites, agora, parecem mais curtas e os dias cada vez mais estafantes. Não há uma fórmula, uma receita pra fazer com que isso passe, não há como matar algo que faz parte de mim e que já partiu.
Apenas os dias, esses monstros silenciosos que veoram tudo, talvez os dias com seus punhais dourados venham revelar o que há de vir, possam, enfim, cortar esse último elo que me liga ao fato de não ser insensível. Não assim.
A idéia de viver agora me parece bem mais solitária e ao mesmo tempo mais doce, mesmo sabendo que já é mais triste. Perder coisas para se ganhar coisas, no fim parece quase tudo uma troca de peças que se encaixam como legos e que quando trocadas nunca são do tamanho exato, machucam, fazem faltar, desequilibram… Na maioria das vezes você fica melhor, mas nunca esquece do antes. Não deseja mais aquilo, mas observa todas as delícias que houveram, ri sozinho, mas não quer mais.
Acorda em outro planeta e percebe-se sonhando com outras notas musicais, em meio a danças medievais, em outros planos astrais e sobe correndo pro único lugar que é seu, a alma.

Queria mudar a maneira das pessoas ao meu redor verem o mundo e descobri que com elas eu apenas aprendi a ver o mundo ainda mais à minha maneira. Tive vitórias, outras vezes quebrei a cara, mas o que ficou foi leve. Leve como o sol de domingo cedo, que já acorda preguiçoso e amarelo e passa o dia se arrastando por sobre nós e não machuca.

Eu vou e quase sempre sinto que só vou
É pouco, muito pouco e ainda assim eu vou.
O que é que me consome?
O que traz o brilho à tona e some?

Nada do lado de cá,
do sonho não restou lembrança.
Nado pro lado de cá,
De volta pro fundo e cada vez mais pra baixo.

me conta sobre seu sonho estranho
coloca uma música doce pra tocar
diz que não sabe, de seu amor, qual o tamanho
que quer correr, e é culpa do medo de se apaixonar

me leva para aquela praça antiga
grita que quer passar a noite inteira assim, do lado
confidencia que sempre quis ser mais do que amiga
que espera que nunca nada dê errado

me convida pra fugir depois do primeiro raio de sol
pega na minha mão, diz que quer sentir tudo o tempo todo
pede pra trocar de música, que não é mais hora de ouvir rock n’ roll
explica que de alguma maneira, mesmo se distantes, estaremos juntos de algum modo

olha com olhos de caleidoscópio as flores de celofane verde e amarelo que fiz
abre uma cerveja, deita no tapete da sala e me faz te amar
sai e volta correndo, gargalhando por ter escapado da chuva por um triz
beija a minha boca, diz no meu ouvido que nunca mais quer chorar

e sorri.

Preciso te dizer tudo agora!
Antes que perca as palavras
Antes que me perca entre as palavras
Antes que elas percam o sentido
Antes que o mundo acabe
E que se acabe meu improviso

por entre os dias e noites eu ando longe
distante do que sinto, tentando entender o que não tem explicação
hora de calar, de observar, de sentir e respirar
vivendo um dia de cada vez.

ando longe.
lá fora faz calor demais
e aqui dentro (de mim) é só frio.

Como o vazio que a preenche toda.
O cigarro que já perdeu o gosto há horas e continua aceso entre os dedos, enquanto ela se olha no espelho do banheiro ouvindo a água do chuveiro, se pergunta sem resposta qual é a razão de tanta dor. Se vê bonita e com medo do fato de nada mais fazer sentido.
Sente-se bem assim, mesmo que doa, ainda que arda. Queima, uma a uma, toda necessidade de tentar traduzir em palavras o que sente e o que sentiu.
O cigarro continua aceso encara-se mais uma vez e ri.

“Hey babe take a walk on the wild side. And the colored girls go doo do doo do doo do do doo”

Era algo brilhante, ainda mais exposto a luz do sol daquele dia quente.
Era intenso, principalmente naquela madrugada lancinante. Vibrava.
Não precisou de porta para entrar, talvez por isso mesmo tenha saído assim tão rápido.
Não tinha voz e me dizia coisas estranhas e sem rimas.
Coisas sem sentido, com as quais eu sempre concordava e ria,
Não sinto saudade e não me arrependo de a ter mandado embora,
Só não concordo em ter perdido esse pedaço grande de mim.
Como se a faixa preferida do cd estivesse riscada e não pudesse mais ser ouvida.
Talvez a veja de novo, em um desses dias em que o que machuca é o que aproxima.

Quando a dor for menor que o medo e não traga tanta hesitação.
Repousarei meus olhos, como quem olha de soslaio, como se visse o mar.
Sem lágrima, sem drama, sem cama, sem tudo.
Como quem navega sem velas sem pressa alguma de chegar.
Apenas vai.
Eu vou.

Sensações como quem escreve como se tocasse um piano
Plano, raso, vôo, fujo.
Os olhos distantes fingindo não querer sofrer
A vontade de chorar que o vento não leva embora
O sonho distante e maluco no cochilo do almoço
Eu juro, tentava te levar comigo.
Mas você não vinha e depois eu te salvava.
Corríamos de um monstro grande que comia a rua atrás de nós
Segurando a sua mão escapamos por um triz e você sumiu.
O quarto, escuro, um arrepio estranho nas costelas
Daqueles que a gente sente e se contorce.
Que é bom.
Que é ruim.
Como você.
Como eu.
Como é quando estamos só você e eu e rimos abraçados.
Os olhos, o nariz que eu digo que é grande só pra azucrinar.
Quando faz careta e diz pra eu tirar o “chulé”, só pra eu rir.
E você também ri.

No fim da noite eu entendo o que era o sonho.
E quão real é isso.
Como ter, como não ter.

No início era o verbo. Pobre, maltrapilho, maltratado em pretéritos imperfeitos. Pressuposto sem conjugação. De algum canto inaudito, surgiu a Bárbara – B, falando em morrer logo, para esquecer o sofrer de ontem. Me diz que é possível torná-los, os verbos, escravos. Que posso mordê-los, gastá-los, sujá-los e, ainda assim, ter prazer nas coisas que ficam.

Com ela vem Lúcia, tão impensável quanto, clariceando as sensações em tempos impensáveis e improváveis. Diz que a vida é um show, dividido em cenas, atos. Conta que são sete. Uma para cada dia da semana, deslizando, incongruentes ao longo do tempo. Posto que são, ultrapassam-se.

Eis que aparece outra lu – luciana, luci, ludibriando-se e brincando de soletrar sons, sonhos e sensações. Me conta que a beleza atrapalha, põe sentimentos que não tem. Sem. Querer. Sussura que ouve Beatles e que sente tudo assim, ao mesmo tempo, que não gosta de esperar e tem a pressa daqueles que querem tudo já.

Claro, há o Edgar e seu laico impropério. Cético, conta sobre sensações anônimas e vidas passadas. Cruzadas, cor de âmbar. Como a cor do que se vomita quando não se tem mais o que vomitar. Concebe o universo num big-bang inverso, explodindo internamente impressões que afloram e dilaceram. Cospe, escarra, expele e segue uma quase leveza amarela.

E há o eu. Alessandro. Des-escrevo impressões que colho nas sublimidades que absorvo. Por não saber ser meio vivo à margem. Recuso o que não quero, apenas vivo. Vivo o inesperado que me espera, sem limite. Intensamente esse segundo. E esse outro, de agora, também. Transmutando entre as coisas que sinto. E eu sinto muito.

Uma idéia que leva a outra. Um blog que leva a outro e depois a outro e mais outro. Idéias que, mimeticamente, trocamos, misturamos e aqui reunimos. Como se escrevêssemos todos juntos, mesmo separados. Na distância que a internet engoliu, nos textos que por aqui viverão e, talvez um dia, morrerão.

Não espere coesão, nem coerência. Cada um é aqui, em seu sentir, de maneira diferente. Assim como se você e eu imaginássemos algo. Imaginaríamos em formas diferentes, exatamente por sentirmos o mundo de formas distintas e extremamente pessoais. Ainda que sentíssemos tudo intensamente juntos.

Subo, enfim, o pano deste palco para o Clube dos Intensos.

Mordam, arranhem, pisem e, se possível, de vez em quando, afaguem.

agosto 2017
S T Q Q S S D
« dez    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Arquivos

categorias

contando

  • 9,835 clicks