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“Restos dos quais se servia
porque não podia ter nada por inteiro.
Nada verdadeiro.”


E ainda assim se fazia: metade.

Foi ao outro lado do mundo e voltou, fragmento.

Depois de tudo ainda não sabia ser inteira.

Depois de tudo.

Me diz: como ser inteiro com o outro

quando não se sabe ser inteiro

nem consigo mesmo?

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Ando sozinha nas ruas de Kowloon, junho de dois mil e seis, Hong Kong, outro mundo e não me sinto só. As feiras, os templos, as cores, incensos, luzes. O Victoria Harbour pontilhado de ferry boats, os edifícios iluminados, nada tem fim. Passo por mil rostos parecidos, passos apressados, eu não tenho pressa. O tempo pára comigo em cada esquina, tento prendê-lo em cada foto, ele me escapa, brinco com ele. Ali do outro lado do mundo eu sei quem sou. Mil desconhecidos e sou capaz de me encontrar nas escadas do Templo Po Lin, na mão direita do Buda gigante erguida em saudação, na neblina velando as montanhas. Estou no ar puro, na paisagem vasta e calma, no meu e no teu silêncio, namastê. Atravessei meio mundo pra encontrar a mim mesma, vazia de palavras, tão plena de sentido.

Meus pés descalços no asfalto, fevereiro de dois mil e nove, Brasil, procuro minha alma. Procuro minha razão, minha paixão e minha calma. Caiu pelo caminho, tenho certeza. Olho cada pedra e cada folha, as formigas sobre o pó, não me vejo sob a luz âmbar do poste que ilumina a rua. Cabelo solto, o vento, o céu de verão escurece e revela as estrelas. Respiro, sinto. O som do piano do meu pai, Für Elise, me lembro. Lembro quem fui, meu riso, as brincadeiras, mas sob os olhares conhecidos agora já não sei quem sou. Misturo palavras e o sentido já não me vem. Tudo fora de lugar, eu sei, e não encontro. E esse vazio me dói tanto. Procuro conexão. Procuro olhos que não me atravessem e amores que não sejam descartáveis. Procuro uma presença que o tempo não seja capaz de me arrancar, não de dentro. Se a encontro, quem sabe encontro a mim mesma, meu porquê. Sigo descalça, angustiada, desconexa. O caminho é longo e dói. E eu sei.

Ouvindo: Pássaros em Festa, Ernesto Nazareth

as palavras que não digo me atravessam, flechas envenenadas.
não digo se o bom senso me impede, não digo pelas conseqüências.
não digo pela culpa que já me toma enquanto penso em dizer.
mesmo as boas, por insegurança, cravam-se às vezes aqui dentro.
é assim que não machuco os outros. nem os deixo constrangidos.
é assim que tomo, diariamente, altas doses de veneno.

Só.

Esgotada.

Ontem escrevi seu nome. Apaguei. Reescrevi, sem letra maiúscula. Porque isso ele nunca mereceu. Da mesma forma que seus braços nunca mereceram os meus, nem sua boca a minha. Suas palavras, seus atos, menino bonito, nunca mereceram um único segundo da minha atenção. Aquela que lhe dediquei porque acreditei um dia na possibilidade de você se tornar gente. Mas o mundo não é um conto onde feiticeiras dão vida e dignidade a vazios e miseráveis bonecos de madeira. Você nunca quis ser gente, embora me houvesse falado dos meus encantos e do meu poder de transformá-lo ao lhe tocar. Deste meu poder, nunca duvidei. Mas duvidei das suas palavras quando, do alto daquela torre, vendo as luzes da cidade e sentindo o vento forte e fresco, você se abriu, me contou sua vida e quis que eu fosse parte dela. Não, não acreditei. Era o vinho, não você. Era o feitiço da noite, dos meus carinhos, da minha atenção, dos meus beijos. Eu quis lhe tocar e transformar ali. Mas você soprava na noite palavras que perdiam o sentido assim que abandonavam sua boca tão bem esculpida. Voláteis, como tudo o que vem de você. Voláteis como esse seu jeito de ver e viver o mundo, como tudo o que diz sentir, como cada um de seus pensamentos e cada uma de suas vontades. Tão voláteis quanto sua razão e sua moral.

Há algo em você que não possua a lastimável propriedade de me afastar cada vez mais?

Eu tentei. Tentei. Mas o feitiço não faz efeito se você não acreditar nele, e antes de tudo em você mesmo. Não me resta agora mais nada a fazer além de recolher minhas poções, minhas esperanças, meu carinho que não conseguiu virar amor. Apóio num canto escuro o caldeirão vazio, e me afasto. Talvez um dia você não seja mais tão oco. Talvez um dia suas palavras façam sentido. Talvez um dia sua moral não seja mais feita de éter. E pode ser então que sua voz já não me alcance. Pode ser que eu esteja longe, mergulhando em olhos muito mais verdes, acordando em braços muito mais quentes, onde correm sangue, respeito, caráter. Onde eu não precise mais ver suas costas, nem ouvir suas mentiras.

Chora, infeliz incauta. Chora porque beijaste uma boca estéril, porque são tão diferentes dos dele os teus ideais, as tuas histórias, os teus gostos, tudo. Chora agora porque nunca o tinhas visto até aquele beijo, e o coração que esteve hoje tão perto nada se parece com o teu, e por ele o teu não pulsa nem por um infeliz segundo.

Arranca logo de ti esse coração infértil, tão pleno de um vazio que te atravessa e corta e te dói inteira, tão amargo, tão independente da tua vontade, tão carrasco e filho da puta. Pra que o queres agora? Pra que o queres assim? De que te serve esse coração incapaz de amar plenamente, de se conectar, tão cego e burro quanto porta alguma jamais foi? Arranca-o de ti e o atira de uma vez aos porcos. Deixe que se alimentem dele como se a mais ínfima e podre das migalhas fosse mesmo um dia lhes pertencer. E chora.

Chora convulsivamente. Sufoca o teu pranto nesse travesseiro e dorme outra vez com os olhos inchados, a maquiagem borrada. Chora porque nunca vais ter nada além de restos. Nada além de uma boca qualquer, de um corpo qualquer, numa madrugada qualquer.

Talvez assim, dilacerado, atirado a um solo imundo, misturado à merda da pocilga e repartido entre os porcos, talvez assim teu coração te pareça útil.

Talvez assim percebas que ele ainda pulsa, desconsolado, débil, despedaçado. Desgraçadamente fraco.

Talvez.

Olho a estrada à minha frente, e a cada passo ela me pesa mais.

É que levo comigo tanta coisa que julgo um dia precisar, tanto peso, tanto peso, que não consigo mais andar.

Fecho os olhos. Expiro. Esvazio-me. De tudo.

Se é necessário que eu arranque do corpo, da alma, toda dor e toda ausência para que eu possa enfim caminhar, arranco-as todas agora. Se é necessário que eu queime junto com elas e desça novamente ao meu inferno, queimo, ponho-me enferma, desço o quanto precisar. Para escalar em seguida, com os dedos em carne viva, as paredes mortalmente ásperas que me levam outra vez à superfície e ao ar que desesperadamente busco. Para arremessar as cinzas aos teus pés, Mãe, nesta terra que acolhe e transforma, que traz e leva embora, edifica, destrói e recria com os restos as mais ricas essências. Se precisa ser assim, que assim seja. Que assim se faça.

Atiro aqui, agora, as cinzas do que fui. Cravo nelas um punhal para que se misturem com a terra e nela se entranhem cada vez mais fundo, e nunca, nunca mais retornem. Exorcizo toda dor, todo vazio, todo o meu passado. Violento minha alma e meu peito em nome de toda possibilidade. Declaro-me livre e plenamente capaz de prosseguir, frágeis pés caminhando sobre um solo áspero em busca de vida, em busca do mundo. E que jamais digam que não fui forte. Que jamais digam que não fiz escolhas e que não optei por seguir, mesmo miseravelmente partida.

Às dores que sei não poder evitar, curvo-me: são minhas sábias mestras.

A todo o resto, abro os braços. Recebo.

Inspiro.

Abro devagar os olhos e vejo que a estrada agora é outra: acabo de nascer outra vez.

Horas e horas de uma procura que me esgota as forças, e não consigo encontrar as peças que faltam. Olha, por favor, embaixo dessa mesa. Não? Não estão? Quem sabe no armário da cozinha ou na pia do banheiro… também não? Podem ter caído pelo ralo, e sendo assim vou precisar de um encanador. Não importa o quanto me custe, não posso, não posso ficar sem as peças. Como vou recompor sem elas este meu mosaico já tão desgastado, os pedaços multiplicados por mil a cada tempestade, atirados longe por cada raio cego, por cada explosão que leva embora um pouco dos meus contornos, das minhas cores, do meu sabor? O relógio, que ironia, este continua sempre intocado, imperando sobre a dor e o vazio das peças perdidas, três horas e não encontro meus braços, sete horas e não vejo o coração, um dia inteiro e ainda busco o ar dos meus pulmões. Um minuto pra me perder, uma vida pra me encontrar, e como caminhar se não encontro meus pés?

Procura-se uma alma, escreve nessa folha, faz um milheiro de cópias, espalha por onde andares. Vai logo, e se encontrarem algo, pede que procurem a rua dos perdidos, sem número e ainda sem chão.

Recompenso bem, assim que recuperar minha gratidão.

Olho o papel branco sobre o envelope, giro a caneta entre os dedos, mordo-lhe a tampa. Ah, os começos.

Sei exatamente o que quero te dizer. Mas o branco da folha insiste em me abduzir, hipnotizar, arrancar do baralho de sentimentos sem nome que dançam, debochados, aqui dentro. Começo, paro, olho as primeiras linhas, e as odeio. Odeio começos. E sei o porquê: todo começo traz, implícito, um fim. Finais são uns filhos da puta. Pode ser a mais bela das histórias, o mais belo dos finais. Mas é final. Se houver uma resposta tua, também ela vai ter um final. Odeio tudo o que é volátil, impermanente, tudo o que está desgraçadamente acorrentado às leis da física. Aliás, odeio física. O grande sonho do meu avô era inventar uma máquina que, uma vez posta a funcionar, não viesse mais a parar, nunca. Meu grande sonho é abolir todos os finais. Histórias, sensações, horas deveriam poder ser vividas e revividas outra vez, outra vez, outra vez…

É que ninguém me toma assim, de assalto, aperta contra a parede, devora com seus beijos, com seu sexo, puxa meus cabelos, bagunça meus sentidos, marca minha pele, rouba meu fôlego e meu juízo e sai então, satisfeito, andando sem olhar pra trás. E o pior: sem coragem de dizer adeus.

Sabes, já tinha visto tuas costas antes. Antes mesmo de te conhecer. Vi nas tuas palavras, ouvi na tua voz, li nos teus olhos, no teu jeito de sorrir, de falar, de calar e de me ouvir. Senti no teu corpo, na tua pressa de me possuir. No teu jeito desesperado de tentar se livrar do gosto de outra mulher procurando sentir o meu. Mas já não sentias nada. Já estavas irremediavelmente envenenado, possuído por inteiro, por dentro e por fora, e eu vi.

Ah, sim, eu soube do fim antes de tudo começar. Soube naquela madrugada, naquele aeroporto frio, enquanto procurava dominar minha impaciência, meu sono atrasado, minha febre de trinta e nove graus. E ali mesmo já procurava arrancar de mim o inexplicável carinho que sentia por tudo que vinha de ti, o desejo de te abraçar forte e a ilusão de que eu talvez conseguisse te prender naquele longo e silencioso abraço. Enfim, arranquei tudo de dentro de mim naquela rodoviária, te expulsei daqui de dentro junto com as lágrimas que, fraca, deixei cair naquele chão imundo, como um filho indesejado que é violentamente extirpado de um ventre e atirado numa lixeira qualquer.

Foi por isso que nunca te amei. Nunca te amei porque te matei assim que nossos corpos se separaram. Como uma Viúva-negra que mata e devora o macho assim que termina a cópula. Arranquei-te de mim antes que crescesses. Antes que me tomasses a alma. E o coração.

Arranquei? Se queres saber, ainda vejo teus olhos, ainda sinto teus dedos na minha sobrancelha, ainda lembro da tua voz, sussurrada, quando disseste meu nome pela primeira vez. Ainda sinto teu cheiro, teu gosto, tudo. Sabes, bastava que tivesses aberto uma passagem, a menor delas. Eu faria dela uma porta, e entraria por ela. Mas não fiz. Não entrei. Eu nunca, nunca te amei.

Tiro a caneta do papel, examino a caligrafia impaciente, cansada, e vejo nela mais dor do que deveria haver. A dor do que nunca aconteceu. A pior das dores.

Não, não vou terminar, não vou assinar aqui meu nome, como se o gravasse na minha própria lápide. Deixo assim, então, interminado. É assim que eu sou. Uma frase sem ponto. Uma história sem fim.

Ela ri e gira, brincando com as folhas que o vento acaba de levantar sob seus pés. Ri, gira e tenta acompanhar com o próprio corpo o movimento circular: eletricidade no ar, nas coisas, na paisagem, em cada partícula de matéria, em cada gesto. Canto.

Eletricidade que se condensa dentro dela como uma tempestade que se forma, que toma forma, que explode, que se espalha, toma posse de tudo o que encontra. Força que não cabe nela: trespassa. Expande. Tão vasto.

Ela, criança que brinca de Iansã. Senhora dos ventos, das tempestades. Tudo o que ela quer é tirar os pés do chão. E seguir o vento.

Dentro da casa vazia, as luzes apagadas. Portas, janelas abertas. Incenso de flor de lótus queimando na mesinha de centro da sala. A voz de Zizi enche o espaço: o elegante cd de capa vermelha e dourada, sobre a paz, sobre a alvorada, sobre força, sobre amor, sobre polaridades, sobre Chico e Tom, sobre a vida. Sobre o branco e o negro, o divino e o profano. Sobre Todas as Coisas.

Som de violoncelo e percussão. Intensidade. Ela a sente agora, em seus sete centros de energia. Cheiro de terra molhada. Sentidos em alerta.

O vento aumenta. E aumenta mais. E ela quer se dissolver, fazer amor com ele. Se perder. Talvez para sempre, já não importa. Nada.

Sente os pés descalços na grama molhada. Sente o mundo girando, sente tudo. Ao mesmo tempo. Eleva as mãos:

Céu. Mente. Coração. Terra.

A música acaba. O incenso também. Ela seca os pés, deixa o jardim. Entra na casa escura, desliga o aparelho de som. A campainha soa na entrada, em seguida. Ele chegou de viagem. Ela abre a porta, abraça-o forte. E percebe que o vento cessou. Completamente.

Ele traz de volta, com a bagagem, o mundo real. Cansaço. Dores que procurou esquecer. Ela também está de volta: sorriso, café, conversa, agenda. De volta ao outro mundo. Aquele que não sentia seu, mas que erguera incansavelmente sobre pálidas, débeis fundações. As paredes eram de cristal. Sua fortaleza. A risível impressão de que o comum a protegia. De que o superficial a alimentava. De que a vida rasa, num dia qualquer, acabaria por bastar.

Fechou a porta da fortaleza, com cuidado para não deixar bater. Voltou as costas à vida, entorpeceu. Antes olhou a rua mais uma vez. Tão calmo agora. Tão estéril. Acionou o alarme contra roubo, fechou o roupão tecido de seda e medo, ligou a televisão e o piloto automático. A criança em seu ventre voltou a adormecer. Sentiu-se então confortável, segura.

Segura de tudo aquilo que mais desejava.

Até que a próxima tempestade despertasse. Dentro e fora dela.

“Proteja-me do que eu quero.”Jenny Holzer

outubro 2017
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