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existe um triturador dentro daquele tórax
ela é uma moça e prefere sair correndo
do que olhar no espelho e ver que tudo escorre pelas mãos
tudo o que ela toca vira pedra de gelo
ignora o que não lhe interessa, mas muda de idéia
e logo tudo gela
o nó na garganta é parecido com um novelo
o novelo mais embaraçado da cidade
cheio de linhas distintas, cada uma de uma cor
uma cor
o sentimento que mais brilha dentro
o alvo dele é como o sol na manhã fria
olhar seu olhar é a paz no meio da batalha
uma vez pensou que não sentia mais, mas sim
busca em outras casas um abrigo e quando encontra
é expulsa
e o novelo e o nó e a solidão
a palavra mais concreta
ela consegue segurar com as mãos
joga no chão com toda a força
e então cria raízes
mete os pés pelas mãos, tenta substituir
acorda abraçada ao seu novelo
e espera alguém que desate
tudo em 3 segundos e irracional.

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Honestamente eu não entendo o porquê do masoquismo. Porque isso é masoquismo, ou você acha que tudo vai acabar bem e sem dores, sem choro? Maldita síndrome de adolescente que ainda te guia, malditos aprendizados que não vieram com os erros. Pra quê pensar, não é? Vamos viver! Vamos viver, não evite nada! Não evite nada, e depois agüente aí, porque ele não vai estar lá pra segurar suas lágrimas quando essa história toda virar o rebuliço que todos te dizem. Ele não vai estar lá com você, não vai te ligar no meio da semana. Não vai mais te fazer carinho na frente dos amigos. Ah, estou sendo pessimista? Não seja burra! Uma coisa é ter chances de ser feliz, de dar certo. Agora, quando você me diz ser otimista numa situação em que o final feliz é mais improvável que o buraco da camada de ozônio se fechando, eu só posso pensar que você perdeu a cabeça completamente. Essa sua mania de sempre querer “viver a coisa” (como você sempre diz) vai acabar te enlouquecendo, você vai se dar mal mais quantas vezes? Tá, então, eu lavo minhas mãos, o problema é seu! Mas eu te garanto, vai doer. Já está começando a doer, negue! Eu sei que está, só você ainda não se olhou no espelho. Mas é assim mesmo, continue com essa capa de durona, você vai longe! Já cansei dos seus poemas e músicas pra essa gente que não se importa com você! Cansei de te ver passando por cima do seu orgulho. O quê, aliás, eu nem sei se você tem, impressionante. Eu até acho que ele gosta muito de você, você é uma ótima companhia pra ele, seu ar de menina curiosa renova os ânimos, sabe? Sem contar a parte física, e toda a coisa enorme que envolve tudo isso. Só que eu não posso me calar diante de você entrando nessa estradinha que eu não sei se dá num penhasco ou numa cidade, ou numa praia, ou num rio poluído. Você gosta de sofrer, não é? Não, eu não te entendo. Você me diz que não vai passar dos limites sentimentais, e espere que eu acredite, sendo que nem você sabe se acredita mesmo. Siga em frente. Aproveite todos os momentos que puder ao lado desse cara, mas tente mudar esse rumo para a amizade, SÓ pra amizade, por favor. Eu não sei se agüento esse seu cotovelo destroçado de novo, tão cedo.

futuro do presente
futuro do pretérito
seria, viveria, sorriria se aqui você viesse

copo molhado
olhar enxugado
ressaca de dor de não ser

desejo contido
sono desperdiçado
você está, esteve, estará, será?

espera chegar
o mês acabar
a impaciência consumir todo o tempo
tempo que eu tinha que eu tive que tivemos.

Eu acordei hoje e olhei pelo retrovisor
Não vi lá atrás, vi meu rosto, branco
Claro como uma manhã de descanso
Cinza como o concreto que serve de chão

Eu acordei ontem e notei que passava pela mesma rua
Eu não sei o caminho de casa
Mude tudo e eu não chegarei tão cedo assim demais
Quero sair correndo e te ver de frente

Me tira dessa vida escrita por jornalistas
Apareça na minha rua e me chame pra ouvir rock
Estou cansada de puxarem meus pés pro chão
A palavra “calma” eu já mandei pro inferno

Hoje eu acordei e não vi o dia
Não vi o que ficou pra trás e me arrependi
Escuro como os olhos que vêem as pálpebras
Cinza como os dias que meus olhos fingem ser ensolarados.

O vento batia nas costas dela, era aquele frio na espinha, nas costelas, nas orelhas, as veias tremiam. O cabelo que já esperava ser embaraçado se antecipava. Aquele cabelo fino que de perto se viam tantas cores, de longe formavam uma única e brilhante imagem, um cabelo feminino. Seu rosto era claro, sardas e um nariz peculiar, geométrico. Tinha a boca larga cheia de dentes que queriam contar toda a verdade. Sentiu uma vontade de sorrir junto com a ansiedade que lhe fazia mexer o joelho direito freneticamente, tão rápido, tão! “Droga!”, era o controle de tudo indo pelo túnel como o metrô que ia para o sul da cidade. O joelho e a velha música no ouvido. Um alívio no peito, há uns dias passou a achar que tinha ficado para trás na lista de pessoas dele. Mas já começava a entender como funcionava aquela cabeça, aquele coração tão confuso e interessante para ela. Ele era como um livro escrito numa língua desconhecida, o livro mais bonito da estante, que esperava por uma tradução em português, podia ser só um rascunho mesmo, inacabado, como ele é, na verdade. Os rascunhos são toda a verdade, a crua e borrada verdade, sem amarras e sem correções. O metrô chegou, ela entrou, não sentou, a vibração do joelho tremia que nem uma enorme corda de baixo por todos os lados. Não tinha como se aquietar sabendo que em dez minutos iria encontrá-lo, virar do avesso de tanto que o coração pularia. E ter que disfarçar, respirar fundo pra que ele não sentisse as marteladas, ela detestava essas malditas marteladas delatoras e sonoras. Na estação combinada desceu, subiu as escadas espaçosas e que pareciam nunca acabar. A melhor subida de escadas de toda a sua vida. Queria subir correndo pra perder a respiração e ter uma desculpa para ofegar tanto. Chegou na catraca, e ninguém estava lá. Telefone toca.
– Também estou na catraca! Olha pra cá, menina da jaqueta verde!
Aquele abraço que ela sentiu tanta falta por três semanas. Na volta do abraço, não soube o que fazer, mas antes até de sorrir, o beijo.
-Senti saudade.
-Ah, deixa de ser boba vai!
Ele não segurou sua mão e foram para a casa dela. A casa da festa do primeiro encontro, do beijo na janela, do reconhecimento total, aquele que ela não havia planejado. Aquela noite não saía da sua cabeça, sabia que precisava de autocontrole, a vontade de perder o juízo era insuportável. Andava em círculos, cantava no chuveiro, estava andando rápido demais pelas ruas nos últimos dias.
Filme. Risadas. Cerveja, vodca, piadas. Beijos, maquiagem borrada, música, chão, sofá. Pele avermelhada, risadas, dentes. O rosto dele a perturbava, e naquela noite, brilhava. Todas as expressões faciais, todos os tons de voz, todas as palavras que não queria dizer queriam explodir entre as amídalas. Quis evitar a ilusão daquele olhar que olhava por muitos segundos nos olhos.
-Você é estranho.
-Por quê?
-Não sei dizer… Não sei quem eu sou aí.
-Aqui? Aqui você é você e só.
-Deixa pra lá.
-Deixo!, e riu dela.
Quis continuar, mas perdeu a voz.
Era sempre assim desde a primeira conversa. Dúvida, toda aquela confusão de pensamento, tudo isso que significa uma coisa só estava queimando-a por dentro. Queria levantar e falar em voz alta, muito alta, que não entendia nada, que queria ser dele e de mais ninguém ou de qualquer coisa. Queria pedir um sinal, um sinal que não fosse os de sempre, esses tão contraditórios. Mas não levantou, virou a cabeça para o outro lado, mantendo o corpo cansado de bruços. Respirou fundo. Não tinha mais ar. Sentiu o abraço, sentiu o cheiro dele, apertou os olhos e se deixou dormir, o rosto tenso. “Que tortura”.
O sol nasceu dentro do quarto. Percebeu que o braço dele ainda dormia sobre ela. Lembrou da teoria que leu numa revista sobre os modos que as pessoas dormem em dupla, que cada tipo tem um significado. Sempre tentando achar um significado pra tudo, mania antiga. Queria mesmo é alimentar aquela ilusão do tamanho de vinte casas como aquela em que estavam.
Ajeitaram-se. Seguiram até o metrô de ontem, as mãos dadas, as palavras economizadas, os planos de cada um para aquele dia. Quatro metrôs passaram, e foram embora sem eles. O abraço que segurava. O beijo que ela demoraria mais quantos dias pra beijar novamente? “E agora?”
Nó na garganta dela.
Ela embarcou pra Oeste, ele para Leste.
Ele, sentado no banco da janela. O barulho do metrô soava como música, perto do tamanho do medo que sentia. O que aquela garota tão cheia de surpresas e graça, quase com os mesmos anos de idade que ele, que mais pareciam muitos, queria com um garoto como ele, ele se perguntava. Lembrava das horas em que não sabia sobre o quê ela falava, e sentiu o rosto esquentar. A mão nos olhos. Se xingou em pensamento, e decidiu começar a ler todos os livros, ver todos os filmes que ela adora. Sentia medo, sentia felicidade. Depois de tanto sofrer com a última desilusão, que mal tinha passado, via aquela luz no fim do túnel, de tantas cores, e ela brilhava demais. Ontem quase viu o coração dela enquanto a beijava. Os braços femininos, as mãos aflitas e famintas gritavam todas as palavras de amor. O muro construído em volta dele pedia pra ser derrubado de uma só vez, ou aos poucos, podia ser. Mas como acreditar? Medo.
Nó na garganta dele.

Ela entra no trem e se senta na janela. Todos os dias. Às vezes permanece em pé e com dores por todo o corpo, mas hoje ela está na janela. Quando isso acontece, parece que a mente fica mais limpa, o vão mais livre pra tantas palavras e dúvidas atravessarem. O vento gelado que bate na testa lhe dá calor, e essa sensação é literal, mas também subjetiva. Ultimamente está mais confusa, não consegue definir sentimentos, e a necessidade de fazer isso é quase obsessiva. Ainda mais quando o ímã da vez é o mistério em forma de gente. Gelado e quente. Demonstrações de afeto e indiferença. Se ao menos pudesse ir pra casa sem se atordoar, sem a impaciência dos que esperam sempre muito. O tempo, as datas, tudo isso não existe. A boca fica seca, esta mesma, sempre tão urgente, com fome na alma. E o seu querer não tem a calma de esperar a suposta hora certa. É sempre na hora errada, nas horas erradas, assim, no plural. Tem vontade de escrever tudo num papel, mas não trouxe nada de importante na bolsa. No último conselho, lhe disseram que se não morrer jovem, ainda tem uns bons sessenta anos pela frente. Quando se lembra disso, sorri, por um segundo se esvazia da ansiedade que a tomava, mas logo volta ao seu normal. Tenta pensar nas pessoas que ali estão, e consegue. Se lembra que pensar sempre positivo é algo que ainda está aprendendo a fazer, o que é um fardo. Ainda assim, não há nada melhor a ser feito, não há nada a perder tentando. Tentar. Atentar. Mais um sorriso, pois hoje lhe disseram que pessoas como ela não vivem muito, coração sempre “dançando”. Mal sabe ela que quem vive assim, vive. No ouvido, ouve a música que ouviu junto. Os primeiros momentos foram cheios daquela alegria adolescente, que só quer estar junto. Pensar no depois é muito aflitivo, aí se lembra daquela técnica de concentração que aprendeu na aula de ioga. Ótimo. Pega um chocolate e engana o frio no estômago. O céu lá fora está com nuvens, a música no ouvido está chamando, a semana, a noite, e tudo o mais que ali dentro passeia, está só começando.

Farpas, o que elas são pra você?
É assim que você se veste de manhã?
As palavras que você não quer nunca dizer saem em forma de sorriso.

Seu olhar fixo,
Você não pensa que me engana

Suas contradições são de propósito

Só pra me dizer que talvez eu consiga arrancar
Algo que está preso em você com cola barata
E eu descolaria de uma só vez, como cera quente

Suas palavras azedas me adoçam e de repente um frio nas costas

Um frio do medo me abraçando por trás
Que diz perto da nuca:
“Eu ainda tenho algumas horas pra fugir”
Fugir da razão que esse medo tem pra viver

Fuga não se escolhe.
Dois caminhos e eu escolho andar na neve que eu nunca vi.
Sem roupa.
Por enquanto, e ‘por enquanto’ é uma desculpa esfarrapada

O prazo de fuga acaba depois de ontem

E minhas palavras ardidas, arrependidas já se levantam e lavam o rosto

Sentam na velha cama sem encostar os pés no chão
Esperando a ensurdecedora melodia do despertador tocar.
outubro 2017
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