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Sei que não sou mais o que fui ontem. Tenho em mim um vazio imensurável, uma tristeza oca, um peso que me prende ao chão e não me deixa seguir em frente. A única opção que me resta é sentar e abraçar meu próprio corpo, fechar-me em uma redoma de pele e pêlos. Deixar que o tempo passe, o mundo gire e as coisas aconteçam, acostumando-me novamente à solidão. Um estar só que vai além da falta de presença alheia, é a ausência de tudo. Os sentimentos, que um dia fizeram de mim quem fui, extinguem-se diante dos meus olhos. Espero por mais três anos de clausura, autoconhecimento e auto-suficiência. Espero por mais amores passageiros, sem nenhum significado, que de nada merecem tal denominação. Espero por quantos mais anos forem necessários até que consiga aprender a lidar com a força do que guardo em mim. Choro ao escrever essas poucas e mal traçadas linhas. Choro e de repente descubro que o que hoje está oco, ainda reclama a ausência daquilo que o preenchia.

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Solve-me como a um último gole de vinho da garrafa mais cara, sente o prazer de me ter dissolvendo em tua língua, a cada movimento;

Ouve-me gemer um tom só meu, por toda carícia da tua boca, dos teus dedos, da tua presença que se faz ausência e volta a si, ao nosso ritmo;

Observa-me em toda a minha pressa, o acelerar do meu peito exposto em todas as partes do meu corpo, tudo palpita, e sempre mais, a cada segundo;

Toca-me a alma com teus lábios libertinos e goza. Em mim e comigo.

Aquilo que não foi esquecido; aquilo que é.

Há algumas horas atrás, me vi pensando certas coisas inquietantes. Dessas que nos põem rugas na testa e nos fazem perguntar por que as coisas têm que ser como são se, desse jeito, não nos fazem bem. Parando, percebi que as coisas, por serem de fato coisas, só se definem, permanecem ou mudam de direção se nós quisermos, se fizermos por onde. Ou seja, é uma merda? Culpa nossa. Foi aí que todo o peso do mundo me esmagou. E como doeu. Não que eu sinta que a situação de tudo que compõe a minha vida automaticamente faz de mim uma vítima-algoz, mas, infelizmente, certos componentes, ao meu ver mais importantes, são um belo fracasso. E eu, então, uma fracassada. Talvez tal dedução tenha vindo um tanto quanto atrasada, talvez já devesse ter me dado conta disso há alguns anos atrás. Afinal, precisei de quase 22. Não, isso não é pouco. Não, eu não me acho velha. Mas me sinto cansada, abatida pelas tristezas e, de repente, descubro que poderia ter evitado tanta coisa. Pior ainda é ver que não adianta nenhum pedido de desculpa ou retratação de tipo algum, as coisas (malditas coisas) não voltarão mais a ser como eram. Perdi tanto: de amores a trabalhos; de esforços a lágrimas. Nada é recuperável. São dos tipos de danos irreparáveis sobre os quais até se tinha certo controle e chance de uma nova carga na bateria, mas que, não aproveitados, extinguiram-se. Impotência é algo extremamente incômodo e insuportável quando não a temos desde sempre, quando ela simplesmente aparece quando bem entende. Nunca me senti tão igual aos homens, outrora viris, hoje dependentes da pílula azul. Digo: agradeçam por ainda terem um paliativo ao qual recorrer algumas noites que sejam. Eu passo as minhas, todas elas, sem nenhum.

Está escuro. Apenas a luz fraca e oscilante de uma televisão muda ilumina o quarto. Ela gosta do silêncio, sempre foi um companheiro fiel. Ainda tem no rosto a marca das lágrimas e a expressão apática da dor. Daquele tipo que dura mais tempo do que se agüenta e é mais intensa do que se espera. Ela fecha os olhos, está sentada e tem o livro querido nas mãos. – Nunca ninguém falou sobre o amor como Kundera, – ela pensa – nem nunca falará – completa e sorri timidamente. Passa os dedos pelo desenho da capa e lembra a última vez que o leu em voz alta. Estava ao lado dele na cama. Sentia que poderia morrer depois daquelas noites. Era tanta felicidade, tanto carinho, tantos abraços e beijos que mal podia conter a alegria, a sensação boa que é sentir-se amada…

Então lembra do avião, da volta e do choro. Da agonia, do fim de tudo, da impotência diante dos fatos e do sentimento que iria ser assassinado. Desespera-se mais uma vez. Uma entre tantas outras vezes nesses sete últimos dias. Não nessa última semana, mas nesses sete últimos dias. O peso é muito maior. As noites não dormidas são extremamente dolorosas e difíceis de carregar. Ela enxuga o rosto com as mãos e levanta. Deixa o livro em cima do criado-mudo e caminha até o guarda-roupa. Abre a porta, ajoelha-se e procura a camisola na gaveta. Roupa que ainda trazia o cheiro dos dois e que usava para dormir quando sentia-se muito só ou muito triste. Não queria lavar, não iria fazer isso tão cedo. O cheiro a reconfortava. Era a única coisa que ainda podia ter, além das lembranças: a mistura do cheiro dos corpos, do sexo, do sono, da preguiça na cama. Aquilo era como uma droga que acalmava o mundo dentro dela. Tudo, então, fica tranqüilo e ela consegue pensar novamente. Pensa que pelo menos pôde viver aquela história, que pelo menos pôde tê-lo por aquele tempo e que pessoa, distância, mágoa ou dor alguma conseguiria apagar. Nada diminuiria o sentimento, nem a história. Nada.

Ela sorri, dessa vez um sorriso bonito, veste a camisola e dorme.

É minha, que sou idiota; É sua, que é covarde.

Vamos acabar com tudo isso. Vamos nos pisar, nos maltratar, chorar até a última lágrima não querer mais sair, até os olhos secarem, como os meus estão agora: secos, vermelhos, inchados, exaustos. Vamos mandar o nosso amor para a puta que o pariu. Mas e quem é a puta? Sou eu? É você? Ok, meu bem, nos mandemos à merda, então. Assassinemos esse sentimento que de nada serve e para nada nunca serviu. Aliás, para a dor e para mágoa, ele é de uma utilidade sem igual. Grande e bela perda de tempo, não? Grandes e belos gastos desnecessários. Se eu soubesse que tudo iria acabar assim, não teria me dado ao trabalho, juro, não teria nem lhe dirigido a palavra. Queria nunca ter visto em você uma possibilidade de ser e de fazer alguém feliz, queria nunca ter sentido por você todo o amor que pude sentir, queria nunca ter lhe conhecido, de coração. Quero sumir.

Vamos assassinar esse sentimento imbecil. Vamos comê-lo cru e sorrir para mostrar o quanto somos cruéis e fortes e racionais e pateticamente inteligentes. Vamos arrancar do peito qualquer coisa que ainda bata, por desespero ou não. Foda-se tudo isso. Vamos tirar da cabeça qualquer lembrança. Vamos fingir que nada aconteceu. É tão mais puro, não é? Tão mais fácil, tão mais certo. É isso que dizem, todos devem estar muito a par dos acontecimentos. Todos devem ter vivido essa história muito mais do que nós dois. Todos uns filhos da puta desocupados.

Que seja muito sábia essa decisão, querido. Meu silêncio é a minha melhor resposta à sua burrice. Sim, por que eu, apesar de passional, estou longe de ser burra, ao contrário do que disseram suas palavras. Não associo uma coisa à outra. Se tal conexão faz você se sentir melhor, que assim seja.

Que assim seja e amém.

São seus braços, suas pernas, seu pescoço, seus olhos, sua boca. É você. É o seu corpo que o espelho mostra. Ele não teria como mentir, você pensa e acredita. E imita o que vê. Insiste na cópia. Cópia de si mesmo, mas ainda assim, uma cópia. Versão tão igual e tão falsa do que quer ser real, mas não consegue. Realidade. Que definição dar a essa palavra? Você não sabe, nem quer saber. Entrega-se então a uma viagem mental pelas entranhas: músculos cansados; ossos fracos; dois pulmões vazios à procura de ar; um estômago cheio daquilo que não presta; um coração querendo bater, querendo viver as delícias da sua idade. Intensa idade. Intensidade. Aquilo que não larga nunca as suas pernas, como uma sombra insistente. É um pedaço seu, um fardo, na verdade. Quase um karma. Que não lhe deixa quase ser. Por mais que o ser total seja irreal. Ele é. E sendo, ele pode. E vai.

Você é como eu. Somos iguais.

outubro 2017
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