Expressa aqui a tua ira. Cospe tuas entranhas. Mostra esse seu sorriso fragmentado.
Mas leva pra longe o cheiro pútrido da esperança que você matou!
Arranca os dedos inúteis de suas mãos pálidas.
Sua língua só profere mentiras e desgraças.Entidade maldita, esgoto humano.
Parasita que devora os restos das vidas enlatadas. Cego, surdo, mudo, atrofiado. Devorador de almas, de vida sem gozo. Que mata sua sede no meu lamentar.
Tira essa marca de pegada das minhas costas! Que eu já não sou mais seu tapete. Tira de mim esses barbantes, que já não existo pelas tuas mãos.
Devolve a vida que você me tirou. Leva embora esse filho torto que você me deu. Parido pela garganta num grito sufocado.
Criatura maléfica, que é que você quer?
Que é que te aborrece a ponto de me desmembrar?
“Restos dos quais se servia
porque não podia ter nada por inteiro.
Nada verdadeiro.”
E ainda assim se fazia: metade.
Foi ao outro lado do mundo e voltou, fragmento.
Depois de tudo ainda não sabia ser inteira.
Depois de tudo.
Me diz: como ser inteiro com o outro
quando não se sabe ser inteiro
nem consigo mesmo?
Um espelho não acrescenta nada. Só reflete. Os erros e acertos. Não sou igual a você, não quero ser nunca. Não quero que você seja igual a mim. Porque assim eu não acrescentaria nada a você, você não acrescentaria nada a mim. Só compartilharíamos, mas não haveria adição. Eu sou terreno desconhecido, e até inóspito. Mas você não habitaria meu mundo se nele não fosse feliz. E eu não habitaria o seu. Se eu soubesse tudo a seu respeito, se você fosse previsível, não haveria propósito em ter você por perto. Pelo menos não pra mim. Se eu fosse tudo que você conhece e está acostumado, não haveria nada de interessante. Também não haveriam as brigas mas, apesar de tudo, sem elas não iríamos amadurecer e quebrar a cabeça. Não aprenderíamos a engolir nosso orgulho e saber a hora de ceder. Saber quando falar, quando ouvir. Saber pedir desculpas. Dar tempo ao tempo. Ser sinceros. Não sou seu espelho. Sou diferente de você. Sempre serei. Não quero refletir seu sorriso, sua alegria, nem nada que venha de você. Quero ser a causa. Ser o problema, a solução. Você é odiosamente diferente de mim. Mas isso também te faz ser muito amado. Além de tudo, você é o que eu não consigo ser. E te admiro. Você me repreende quando faço algo que vai contra o que você acredita. E eu faço o mesmo, e fico furiosa. Depois eu te amo mais, no meio de uma conversa qualquer sobre nossas vidas. As pessoas deveriam saber o quanto são valiosas. Saber entender as diferenças e evoluir com elas. Saber amar sem nenhuma condição imposta. Saber dizer a verdade. Não ter medo de fantasmas imaginários. Ir de um extremo ao outro. Do céu ao inferno.
Sou rígida, sou diferente de você, tenho uma casca grossa e fria por fora, mas… você pode me aprender…
Tudo o que eu vejo agora são apenas nuvens, nuvens que deixam meus olhos vermelhos e me impedem de olhar pra frente. A certeza de que não havia razão pra ser assim, mas foi. Noites e noites torturantes sentindo que não era a coisa certa. A decisão incerta de deixar partir, de deixar que tudo o que segurava isso caísse de mim como um galho seco de uma velha árvore ao pé de um montanha coberta de neve e, por isso, provocasse som algum.
Provavelmente aquela mudança repentina na paisagem não representaria dano algum para quem observa com olhos externos. O sorriso continua no lugar, as mesmas rugas, o cabelo tentando achar a postura correta, os olhos tristemente mais leves, mais vivos e menos observadores tomaram lugar no que antes era um desespero sussurrante.
Corre por dentro uma tamanha inquietação que faz com que o sangue pareça jorrar dentro das veias, que nos braços mais finos acabam surgindo e parecem quase sempre estarem prestes a entrar em erupção. Uma erupção silenciosa que assola, como se arrancasse a pele e, assim, sentisse o congelar dessas noites de ventos de inverno que parecem lamber nossos corpos através de nossas roupas.
As noites, agora, parecem mais curtas e os dias cada vez mais estafantes. Não há uma fórmula, uma receita pra fazer com que isso passe, não há como matar algo que faz parte de mim e que já partiu.
Apenas os dias, esses monstros silenciosos que veoram tudo, talvez os dias com seus punhais dourados venham revelar o que há de vir, possam, enfim, cortar esse último elo que me liga ao fato de não ser insensível. Não assim.
A idéia de viver agora me parece bem mais solitária e ao mesmo tempo mais doce, mesmo sabendo que já é mais triste. Perder coisas para se ganhar coisas, no fim parece quase tudo uma troca de peças que se encaixam como legos e que quando trocadas nunca são do tamanho exato, machucam, fazem faltar, desequilibram… Na maioria das vezes você fica melhor, mas nunca esquece do antes. Não deseja mais aquilo, mas observa todas as delícias que houveram, ri sozinho, mas não quer mais.
Acorda em outro planeta e percebe-se sonhando com outras notas musicais, em meio a danças medievais, em outros planos astrais e sobe correndo pro único lugar que é seu, a alma.
Queria mudar a maneira das pessoas ao meu redor verem o mundo e descobri que com elas eu apenas aprendi a ver o mundo ainda mais à minha maneira. Tive vitórias, outras vezes quebrei a cara, mas o que ficou foi leve. Leve como o sol de domingo cedo, que já acorda preguiçoso e amarelo e passa o dia se arrastando por sobre nós e não machuca.
existe um triturador dentro daquele tórax
ela é uma moça e prefere sair correndo
do que olhar no espelho e ver que tudo escorre pelas mãos
tudo o que ela toca vira pedra de gelo
ignora o que não lhe interessa, mas muda de idéia
e logo tudo gela
o nó na garganta é parecido com um novelo
o novelo mais embaraçado da cidade
cheio de linhas distintas, cada uma de uma cor
uma cor
o sentimento que mais brilha dentro
o alvo dele é como o sol na manhã fria
olhar seu olhar é a paz no meio da batalha
uma vez pensou que não sentia mais, mas sim
busca em outras casas um abrigo e quando encontra
é expulsa
e o novelo e o nó e a solidão
a palavra mais concreta
ela consegue segurar com as mãos
joga no chão com toda a força
e então cria raízes
mete os pés pelas mãos, tenta substituir
acorda abraçada ao seu novelo
e espera alguém que desate
tudo em 3 segundos e irracional.
Ando sozinha nas ruas de Kowloon, junho de dois mil e seis, Hong Kong, outro mundo e não me sinto só. As feiras, os templos, as cores, incensos, luzes. O Victoria Harbour pontilhado de ferry boats, os edifícios iluminados, nada tem fim. Passo por mil rostos parecidos, passos apressados, eu não tenho pressa. O tempo pára comigo em cada esquina, tento prendê-lo em cada foto, ele me escapa, brinco com ele. Ali do outro lado do mundo eu sei quem sou. Mil desconhecidos e sou capaz de me encontrar nas escadas do Templo Po Lin, na mão direita do Buda gigante erguida em saudação, na neblina velando as montanhas. Estou no ar puro, na paisagem vasta e calma, no meu e no teu silêncio, namastê. Atravessei meio mundo pra encontrar a mim mesma, vazia de palavras, tão plena de sentido.
Meus pés descalços no asfalto, fevereiro de dois mil e nove, Brasil, procuro minha alma. Procuro minha razão, minha paixão e minha calma. Caiu pelo caminho, tenho certeza. Olho cada pedra e cada folha, as formigas sobre o pó, não me vejo sob a luz âmbar do poste que ilumina a rua. Cabelo solto, o vento, o céu de verão escurece e revela as estrelas. Respiro, sinto. O som do piano do meu pai, Für Elise, me lembro. Lembro quem fui, meu riso, as brincadeiras, mas sob os olhares conhecidos agora já não sei quem sou. Misturo palavras e o sentido já não me vem. Tudo fora de lugar, eu sei, e não encontro. E esse vazio me dói tanto. Procuro conexão. Procuro olhos que não me atravessem e amores que não sejam descartáveis. Procuro uma presença que o tempo não seja capaz de me arrancar, não de dentro. Se a encontro, quem sabe encontro a mim mesma, meu porquê. Sigo descalça, angustiada, desconexa. O caminho é longo e dói. E eu sei.
Ouvindo: Pássaros em Festa, Ernesto Nazareth
Sei que não sou mais o que fui ontem. Tenho em mim um vazio imensurável, uma tristeza oca, um peso que me prende ao chão e não me deixa seguir em frente. A única opção que me resta é sentar e abraçar meu próprio corpo, fechar-me em uma redoma de pele e pêlos. Deixar que o tempo passe, o mundo gire e as coisas aconteçam, acostumando-me novamente à solidão. Um estar só que vai além da falta de presença alheia, é a ausência de tudo. Os sentimentos, que um dia fizeram de mim quem fui, extinguem-se diante dos meus olhos. Espero por mais três anos de clausura, autoconhecimento e auto-suficiência. Espero por mais amores passageiros, sem nenhum significado, que de nada merecem tal denominação. Espero por quantos mais anos forem necessários até que consiga aprender a lidar com a força do que guardo em mim. Choro ao escrever essas poucas e mal traçadas linhas. Choro e de repente descubro que o que hoje está oco, ainda reclama a ausência daquilo que o preenchia.
Honestamente eu não entendo o porquê do masoquismo. Porque isso é masoquismo, ou você acha que tudo vai acabar bem e sem dores, sem choro? Maldita síndrome de adolescente que ainda te guia, malditos aprendizados que não vieram com os erros. Pra quê pensar, não é? Vamos viver! Vamos viver, não evite nada! Não evite nada, e depois agüente aí, porque ele não vai estar lá pra segurar suas lágrimas quando essa história toda virar o rebuliço que todos te dizem. Ele não vai estar lá com você, não vai te ligar no meio da semana. Não vai mais te fazer carinho na frente dos amigos. Ah, estou sendo pessimista? Não seja burra! Uma coisa é ter chances de ser feliz, de dar certo. Agora, quando você me diz ser otimista numa situação em que o final feliz é mais improvável que o buraco da camada de ozônio se fechando, eu só posso pensar que você perdeu a cabeça completamente. Essa sua mania de sempre querer “viver a coisa” (como você sempre diz) vai acabar te enlouquecendo, você vai se dar mal mais quantas vezes? Tá, então, eu lavo minhas mãos, o problema é seu! Mas eu te garanto, vai doer. Já está começando a doer, negue! Eu sei que está, só você ainda não se olhou no espelho. Mas é assim mesmo, continue com essa capa de durona, você vai longe! Já cansei dos seus poemas e músicas pra essa gente que não se importa com você! Cansei de te ver passando por cima do seu orgulho. O quê, aliás, eu nem sei se você tem, impressionante. Eu até acho que ele gosta muito de você, você é uma ótima companhia pra ele, seu ar de menina curiosa renova os ânimos, sabe? Sem contar a parte física, e toda a coisa enorme que envolve tudo isso. Só que eu não posso me calar diante de você entrando nessa estradinha que eu não sei se dá num penhasco ou numa cidade, ou numa praia, ou num rio poluído. Você gosta de sofrer, não é? Não, eu não te entendo. Você me diz que não vai passar dos limites sentimentais, e espere que eu acredite, sendo que nem você sabe se acredita mesmo. Siga em frente. Aproveite todos os momentos que puder ao lado desse cara, mas tente mudar esse rumo para a amizade, SÓ pra amizade, por favor. Eu não sei se agüento esse seu cotovelo destroçado de novo, tão cedo.
as palavras que não digo me atravessam, flechas envenenadas.
não digo se o bom senso me impede, não digo pelas conseqüências.
não digo pela culpa que já me toma enquanto penso em dizer.
mesmo as boas, por insegurança, cravam-se às vezes aqui dentro.
é assim que não machuco os outros. nem os deixo constrangidos.
é assim que tomo, diariamente, altas doses de veneno.